UM PAI PERFEITO
MYRNA MACKENZIE


 
Ttulo: Um pai perfeito
Autor: Myrna Mackenzie
Ttulo original: The daddy list
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1996
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Ana Luiza
Estado da Obra: Corrigida

Charles precisa de um pai...
Algum para lev-lo  feira cultural. Algum que no tenha medo de monstros. Algum que tambm ame sua me e a faa feliz. Mas no ser fcil encontrar o pai perfeito. Por isso, Charles fez uma lista...
...e Nathan preenche todos os requisitos
Nathan Murphy sabia que um filho como Charles seria o orgulho de qualquer homem. E a me de Charles, Faith, era doce, carinhosa e irresistvel. Seria a esposa perfeita... mas no para ele. Nathan no pretendia formar uma famlia de novo. Ento, por que era to difcil afastar-se deles?

Carta de Nathan para Charles
Charles,
Quando voc entrou na minha vida, eu no queria que voc tivesse entrado. Mas voc estava l, e eu nada podia fazer.
Voc me colocou na sua lista de "procura-se um pai perfeito", e que outro garoto em todo o mundo poderia fazer isto com tanta delicadeza? Que outro garoto no mundo teria coragem de fazer a lista das qualidades preferidas para um homem que pudesse tornar-se seu pai?
Voc  realmente especial para mim. Eu gosto muito de voc e jamais gostaria de partir seu corao ou o corao de sua me. Mas eu tenha medo de no conseguir ser o homem qu voc procura em sua lista.
Voc e sua me merecem o melhor.  que quero que vocs dois encontrem o melhor pai e melhor marido do mundo. Eu gostaria de poder ser este homem. Mas, desde que eu tenho certeza de que isto no  possvel, eu desejo que vocs dois sejam meus melhores amigos!
Nathan

CAPTULO I

Faith Reynolds verificou as horas no relgio de pulso. Estava atrasada para o compromisso.
Soltou ruidosamente o ar pela boca e, apertando o volante com fora, pisou no acelerador, numa tentativa de recuperar o tempo perdido.
Aquele era um dia com gosto de bacon queimado. No entanto, amanhecera lindo demais. Cu azul, sol brilhante. Assim que abrira as cortinas do quarto, Faith pensara que algo de maravilhoso aconteceria num dia como aquele. Isso, porm, fora antes de Charles, seu filho de seis anos, ter anunciado que queria dizer-lhe "algo de muito importante".
Estavam  mesa de caf e Charles juntava uma colher de cereais ao leite.
 O pai de Billy Wilkins ir  feira cultural hoje  ele contou, com os olhos castanhos fixos no rosto da me.
De repente, o azul do cu tornou-se mais opaco, o sol menos brilhante. Faith perdeu o apetite. Afagou os cabelos despenteados do menino.
Com a colher, Charles fazia crculos na tigela para misturar o leite e os cereais.
	Voc vai, no , mame? Voc prometeu. Lembra-se?
Ela concordou com um gesto de cabea, lutando contra o n que se formara em sua garganta. O que mais desejava na vida, era proporcionar ao filho tudo o que ele necessitava. Mas, no tinha condies de dar-lhe tudo.
	Poderemos convidar Mandy  ela sugeriu.
Charles largou a colher ancorada nos cereais. Remexeu-se na cadeira.
	As babs no combinam com feiras culturais  afirmou ele com ar srio.  O pai de Scott Miller ir na semana que vem.
	Entendo. E, voc quer levar um pai tambm.  isso?  Seria melhor no ignorar a situao.
O menino no respondeu. Imvel na cadeira, mordia o lbio, observando-a com olhos vivos, muito atento. Aquele era o momento que Faith sempre temera. O dia em que seu filho se sentiria diferente. Excludo.
	Voc acha que encontrar um pai para mim?  ele perguntou num fio de voz.
No, Faith teve mpetos de gritar. Um dia, voc tambm teve um pai, mas ele no nos quis, abandonou-nos. No posso correr o risco de expor-nos, a voc e a mim, ao mesmo tipo de mgoa e humilhao.
Claro, jamais poderia dizer tais coisas ao filho. Empenhara-se para fazer Charles acreditar que fora muito amado. Na verdade, bem que gostaria de encontrar um pai para ele. Fora exatamente o que sempre desejara em criana. Um pai para ela mesma. Era hora de enfrentar os fatos. Nem todos os casamentos eram baseados em sentimentos arrebatadores. Muitas pessoas se casavam por motivos mais prticos, como interesses comuns, benefcios mtuos, para garantirem um pai para seus filhos.
	Voc acha que terei um pai, mame?  Charles perguntou de novo.
Faith fitou-o longa e intensamente. Esquecera-se da xcara de caf  sua frente.
	Ainda no sei, Charles. Vamos ver. Olhe, prometo pensar no assunto.
Ambos se calaram, refletindo nas palavras dela. De repente, voltaram  realidade, trazidos pela fumaa e pelo inconfundvel cheiro de bacon queimado. Faith levantou-se rpido, tentando salvar o que no tinha mais salvao. Charles correu para abrir a janela, mas Faith ordenou-lhe que continuasse sentado, enquanto ela cuidava de tudo.
Era, realmente, um dia com gosto de bacon queimado. E, a partir de ento, s piorara ainda mais.
Girando o volante, Faith entrou numa alameda tortuosa. Depois de quinze minutos somente com arbustos e dentes-de-leo, concluiu que errara o caminho.
Correndo a mo pelos cabelos compridos, estacionou o carro e estudou o mapa que o Dr. Anderson rabiscara  mo. Olhando com mais ateno, percebeu que o nmero que imaginara ser um, na verdade, era sete, e que onde, a princpio lera Hiller Road, poderia ser interpretado por Ridden Road.
Pareceresmungou,desanimada.
Comeara o dia pensando que algo maravilhoso iria acontecer e, no entanto, estava a quilmetros de seu destino, tendo como nica companhia os dentes-de-leo. No sabia onde ficava a casa de Nathan Murphy e, pior, teria que encontrar uma boa desculpa para justificar seu atraso. Pssimo comeo, uma vez que fora prevenida de que o homem ficara furioso quando soubera que ela estava a caminho da casa dele. Faith estremeceu. No queria Nathan Murphy como seu paciente, assim como ele no queria uma fisioterapeuta. O homem que fora o cirurgio mais importante do Southeastern Illinois Memorial, considerado um verdadeiro gnio. O homem de dedos mgicos. Ela sentia muito pelas mos dele feridas, pelo acidente que interrompera uma carreira brilhante e que tirara a vida da esposa e da filha dele, cerca de um ano atrs. Mas, ela tinha uma agenda cheia de pacientes, pessoas que precisavam dela, que estavam no meio do tratamento. No tinha espao para outro paciente, especialmente para algum que, alm de resistir ao tratamento teraputico, precisaria de sesses por longo tempo. Pelo menos, fora o que ouvira de seu supervisor e do Dr. Anderson. Faith no ignorava que teria uma misso rdua pela frente.
Vira Nathan Murphy uma nica vez, logo que ela comeara a trabalhar no hospital, e lembrava-se perfeitamente do impacto que aquele homem lhe causara. Ele quase no falara, e mal notara a presena dela. Ainda assim, quando Faith fitou-o nos olhos, sentiu o corao acelerado, a respirao difcil e sinais de alerta em sua mente. At notar a aliana na mo esquerda. Ento, suspirou aliviada.
Isso acontecera havia dois anos, quando ele ainda era um homem casado. Agora, porm, as coisas haviam mudado. Algumas coisas, pelo menos. Faith ainda fugia de envolvimentos emocionais. Preferia no correr o risco de ver-se envolvida com algum, desde que tivesse escolha. Mas, no tivera. O Dr. Anderson fora categrico ao design-la como fisioterapeuta de Nathan Murphy e ela absolutamente no poderia fugir do compromisso.
E, estava atrasada. No s perdida, como atrasada.
Encolhendo os ombros, manobrou o carro.
  impossvel vencer num dia com gosto de bacon queimado  resmungou, perguntando-se se Nathan Murphy entendia sobre dias como aquele. S tinha que entender. Afinal, um cirurgio com mos feridas, inutilizadas, com certeza j enfrentara muitos dias com gosto de bacon queimado em um ano e meio. Muito mais do que ela!
Logo, ela se arrependeu por pensar assim. Nathan Murphy no tinha culpa se o dia comeara mal para ela, se sua lista de pacientes era imensa ou se ela no prestara mais ateno ao mapa que o Dr. Anderson lhe dera.
Dentro de pouco tempo, seu dia comearia a melhorar. Assim que estivesse em casa com Charles. Ento, brincariam, conversariam sobre coisas sem importncia, ou muito importantes. Talvez, at discutissem sobre a possibilidade de encontrar um pai para ele. Planejar a busca de um homem que quisesse uma esposa e um filho. Tudo se arranjaria e seu mundo voltaria a ser azul e brilhante de novo.
Alm do mais, no poderia assumir uma atitude derrotista. Tinha um trabalho a fazer, um compromisso a cumprir. A primeira tarefa, importantssima, alis, era encontrar a casa do homem, examin-lo e planejar um esquema de trabalho.
Tinha que estabelecer uma relao simples de paciente-terapeuta... e bloquear toda e qualquer lembrana do que sentira quando vira aquele homem pela primeira vez.
Sentado em sua casa quase vazia, Nathan ouvia o montono tique-taque do relgio. Como uma torneira pingando incessantemente, o som irritava, impedindo que os pensamentos vagassem  vontade, mantendo-o preso ao presente, fazendo-o lembrar-se de algo. Algo que ele deveria lembrar-se. O que era?
Oh, sim! Aquele era o dia em que o Dr. Anderson mandaria a fisioterapeuta, a melhor que o dinheiro poderia pagar, segundo ele. Ela viria. Quando? Quarenta e cinco minutos atrs.
Fechando os olhos, Nathan respirou longa e lentamente. Reclinou a cabea no encosto do sof. timo. Com certeza, Anderson esquecera. Dois dias antes, o mdico aparecera l esbravejando, acusando-o de estar negligenciando a si prprio e clamando que ele deveria continuar vivendo. Pior ainda. O homem insistira que, como amigo, tinha o direito de dizer-lhe que ele estava perdendo muito tempo mergulhado na auto-piedade.
Depois, o homem sara, avisando-o que mandaria uma fisioterapeuta, independente da vontade de Nathan. Frisara que recorreria a todos os meios, at mesmo legais, se preciso, para garantir que Nathan recebesse o tratamento adequado. At mesmo ameaara chamar Celine, a irm de Nathan. A irm amorosa, emotiva. A irm para quem ele mentia havia um ano, tranqilizando-a, assegurando de que estava muito bem.
Se Anderson a chamasse, seria o caos. Celine viria chorando, querendo falar sobre Amy e Joanna, revivendo lembranas que Nathan levara meses tentando destruir. Ela reavivaria tudo e ainda traria a famlia, os cinco filhos com quem Amy costumava brincar. Celine traria amor, lgrimas e crianas, coisas com as quais ele no sabia mais como lidar. No desespero de v-la ir embora, acabaria por mago-la, com certeza. Na verdade, Celine se magoaria apenas vendo o espectro em que seu irmo se transformara. No, ele no poderia correr o risco.
Nathan no duvidava que Dan Anderson cumprisse a ameaa. Ele era um mdico competente, um homem astuto. Insistente e enrgico, mesmo quando tratava-se de um amigo. Mas, felizmente, era tambm muito ocupado e, obviamente, esquecera-se de mandar a fisioterapeuta.
timo, Nathan pensou. Isso o pouparia do trabalho de expuls-la de sua casa.
Tambm evitaria discusses para mostrar que os planos bem-intencionados de Anderson no trariam sua esposa e sua filha de volta. Nada poderia modificar o que j acontecera. Mesmo que Anderson e sua fisioterapeuta fizessem o milagre de devolver-lhe as mos, mesmo que ele continuasse salvando vidas pelo resto de seus dias, nada disso faria a menor diferena para ele. Ainda ouviria os gritos da filha ecoando noite a fora, ainda acordaria molhado de suor e tremendo na escurido... exatamente como merecia.
No, nada mudaria. Nem queria que mudasse. No queria uma bendita fisioterapeuta, nem uma segunda chance. Queria apenas ficar sozinho. Completamente sozinho.
A campainha soou. Dois toques longos, quebrando o silncio. Droga. Ela estava atrasada, mas estava l. S podia ser ela. Ningum, alm de Anderson, cometeria a tolice de procur-lo. E Dan deveria estar no hospital, naquela hora.
Nathan levantou-se. Caminhou at a porta e ficou olhando para a maaneta. No fez meno de toc-la.
 Est aberta  disse.
Estava sempre aberta, claro. No conseguia manusear o mecanismo, nem manusearia, se pudesse. Quem poderia condenar um homem em luta contra os prprios demnios?
Ento, a porta se abriu e todos os pensamentos relativos a fechaduras, maanetas e demnios dissiparam-se. Um mulher surgiu no tnel formado pela claridade da porta aberta. Tinha cabelos cor de mel, compridos e encaracolados, que o vento jogara nas faces dela. Nathan reparou que a cabea da mulher mal batia nos ombros dele. Notou tambm que enquanto ela sorria, os olhos azuis-esverdeados mostravam-se cautelosos.
A cautela era algo, uma ferramenta, que Nathan poderia usar. Dan Anderson pensava que tinha Nathan em suas mos, mas Nathan seria capaz de apostar que Dan no tinha percebido a preocupao estampada naqueles olhos azuis-esverdeados. Se aquela era a melhor profissional que o Southeastern Illinois Memorial poderia oferecer, ento, ele estava praticamente livre. Em cinco minutos, ela estaria voltando para Dan Anderson.
Nathan forou algo que consideraria como um esboo de sorriso. Afinal, sorrisos no faziam mais parte do cotidiano de Nathan Murphy.
Ela continuava olhando para ele, ainda sorrindo.
? Ol, Dr. Murphy. Sou Faith Reynolds. O Dr. Anderson j conversou com voc.
?  voc quem est dizendo.  Nathan no deu um passo, nem convidou-a a entrar. Adoraria cruzar os braos e assumir uma postura ameaadora. Porm, tal gesto s chamaria a ateno para o fato de seus dedos no mais se fecharem ao redor do bceps. Com os braos para trs, inclinou-se, encarando Faith Reynolds.  Voc e Dan esto enganados, srta. Reynolds. No preciso de fisioterapeuta.
Pelos clculos de Nathan, ela deveria ter recuado alguns passos. Ele era mais alto, mais forte e estava invadindo o espao que ela ocupava naquele momento. Ele a estava pressionando.
O sorriso dela se alargou. Mas Nathan percebeu que, sob a pele macia do pescoo, as pulsaes se aceleravam, trs batidas mais rpidas, talvez quatro. No era o que esperava, mas j era alguma coisa.
	Sei que no pediu uma fisioterapeuta, Dr. Murphy. O Dr. Anderson esclareceu muito bem a situao. Voc no quer uma fisioterapeuta. Mas, receio que arrumou uma.  Encolheu os ombros.  A propsito, desculpe o atraso.  que errei o caminho e acabei me atrasando. Voc mora bem longe da civilizao, no?
Ignorando o fato de Nathan ainda estar quase colado a ela, Faith esgueirou-se porta adentro. Nathan voltou-se para observ-la. Ainda no fechara a porta. Nem pretendia. No enquanto aquela mulher mignon e indesejvel no voltasse para o lugar de onde viera.
Espantado, viu-a caminhar em direo das janelas. Puxando os cordis, ela abriu as cortinas, as mesmas que ele nunca abrira, permitindo que a claridade invadisse a sala.
Nathan sentiu o sangue subir-lhe  cabea. Nem tentou esconder a contrariedade.
	Pensei que tivesse sido claro, moa. Quero que saia daqui. Agora. No importa o que Dan lhe disse. Trata-se do meu corpo, da minha vida, da minha casa. No a convidei para vir aqui e, portanto, no sou obrigado a suportar sua presena.
Faith permaneceu impassvel, mas seus lbios tremeram levemente. Nathan percebeu, porque alguns fios de cabelo grudaram neles e ela os afastou com os dedos. Esse movimento revelou a orelha pequena que estivera escondida at ento. De repente, ele desejou que ela fosse maior, menos atraente, com aqueles lbios finos e olhos frios. Desejou que ela prendesse os cabelos cor de mel num coque e o escondesse com um chapu. Desejou que ela sumisse dali. Rpido.
	H tanto verde aqui.  Ignorando completamente as palavras dele, Faith apontou para as rvores que rodeavam a casa.  Meu filho iria adorar. Ele tem seis anos. Isto aqui  um verdadeiro paraso para uma criana. To fresco, quase selvagem. Foi isso que o atraiu?
A meno ao filho atingiu Nathan em cheio, batendo de frente com os sentimentos e preocupaes que uma dia tivera. E da que ela era pequena e frgil? Ela representava tudo aquilo com o qual ele no queria lidar. Uma fisioterapeuta, algum que tentaria ajud-lo quando a ltima coisa que desejava era ser ajudado. Uma mulher bonita, delicada e gentil, com voz macia como seda sobre pele nua. Uma lembrana de tudo o que ele perdera. Uma mulher com um filho pequeno.
	Moro aqui porque quero ficar sozinho, sem ningum para perturbar-me, srta. Reynolds. Compreendeu?  Sem esperar por uma resposta, fez um gesto com a cabea.  A porta da rua  aquela. Direi a Dan que voc  tima. Afinal, no queremos nenhuma marca negra na reputao brilhante que voc conseguiu por mritos prprios, no  mesmo? No se preocupe. No direi nada alm da verdade. Voc veio, eu no
quis seus servios e a mandei embora. Ponto final.
Ela o olhava impassvel. Erguera levemente o queixo e no se movera um centmetro do lugar onde parara, ao lado da janela.
	A porta  ele a lembrou. O nervosismo em sua voz era real. Com exceo de Dan, havia muito tempo que no falava com ningum. Por pura opo. No queria ningum por perto. Principalmente algum que perdia tempo jogando conversa fora. No, no queria falar sobre coisas cruis. No com aquela mulher.
Escancarou a porta, como se aquele corpo delicado no fosse capaz de passar pelo espao j aberto. Esticando o brao, ele apontou para o carro dela estacionado no ptio.
Imediatamente, ela olhou para a mo dele. Na fria, ele esquecera de esconder os dedos longos e inteis. Agora estavam suspensos no ar, abertos para ela por alguns segundos, antes que ele os escondesse sob a axila.
? V embora  ordenou.  Como eu disse, esta  a porta. Voc entende o significado de eu no quero voc aqui, no?
? Claro, Dr. Murphy. Sei onde fica a porta e que adoraria fech-la no meu rosto  ela respondeu calmamente.  Sei tambm que ser muito fcil abri-la, j que nunca  trancada. Mesmo que a trancasse...  Sorriu, arregalando os olhos.  Mesmo que a trancasse, Dr. Murphy, eu tenho a chave.  Tirando uma chave do bolso do avental branco, exibiu-a.
Nathan respirava pesadamente. Era inacreditvel que Dan chegara ao ponto de entregar a chave de sua casa para uma estranha. Para aquela mulher!
	Pode falar alto o quanto quiser, Dr. Murphy  continuou ela.  Estou acostumada com pacientes difceis. Faz parte do meu trabalho. O Dr. Anderson preveniu-me a seu respeito, no se preocupe. Voc no poder fazer nada para embaar minha  reputao. S eu posso. E o farei se permitir que me ponha daqui para fora. Eu no vou.
Para provar que estava disposta a cumprir seu propsito, Faith sentou-se no sof empoeirado. Apontou para a outra extremidade, convidando-o a sentar-se tambm.
	Agora, se j encerrou sua discusso, Dr. Murphy, temos que conversar sobre algumas coisas.
Espantado com tanta teimosia, ainda pensando num modo de livrar-se dela, Nathan praguejou em voz baixa. Girando nos calcanhares, saiu da sala. Se no conseguisse livrar-se dela, melhor ignor-la. Mais cedo ou mais tarde, ela desistiria.
Ouviu o som suave dos sapatos de solado de borracha seguindo-o. Voltou-se repentinamente e Faith praticamente bateu o nariz no peito dele. Nathan fez meno de erguer os braos para toc-la, mas enrijeceu-se, recuando alguns passos.
	Espero que tenha uma boa razo para estar me seguindo, moa. Ser que ainda no entendeu a mensagem? Ainda no percebeu que quero ficar sozinho?
Ofegando, Faith mordeu o lbio. Estava corada, os cabelos revoltos devido  coliso.
	Bem, vejo que agora comeamos a nos entender, Dr. Murphy. Voc quer ficar sozinho e eu estou absolutamente preparada para sair de sua vida para sempre.
Ele esperou. O sorriso confiante nos lbios bonitos no deixava dvidas de que ela preparava uma cilada.
? Quando terei a sorte de livrar-me de voc?
? Quando voc estiver cem por cento em forma. Quando no precisar mais esconder as mos atrs das costas.
Lentamente, com um sorriso mordaz, Nathan espalmou as duas mos diante do rosto dela.
Ela as avaliou com olhar clnico, depois balanou a cabea.
	No pense que vai assustar-me ou intimidar-me com o efeito do choque, Murphy. Voc vai livrar-se definitivamente de mim quando essas mos voltarem a cumprir a tarefa para a qual esto destinadas. Baterei em retirada quando voc voltar  ativa. Essa  a meta. Quanto mais hostilizar-me e retardar sua cura, mais tempo ter que suportar minha presena. Se tentar impedir meu trabalho, garanto que o Dr. Anderson e toda a equipe administrativa do hospital viro atrs de voc. Voc  absoluta prioridade, sabia? Voc no tem escolha. Nem eu.
Nathan no respondeu de pronto. No considerara a possibilidade de Faith estar ali contra a vontade dela. Mas, que diferena faria para ele?
	Dan a obrigou a vir aqui?  ele perguntou, tornando a esconder as mos nas costas.
Erguendo a cabea, Faith fitou-o direto nos olhos.
	Este  um trabalho, Dr. Murphy. Voc est sob meus cuidados, querendo ou no. Admito que, para mim, foi uma inconvenincia. J estou com meus horrios completamente tomados por pessoas que contam comigo, pessoas que no me  mostram a porta da rua. Um garoto que est dando os primeiros passos, depois de um ano. Uma mulher que est comeando a acreditar que no  um peso para a famlia.
Realmente, no tenho tempo, nem inclinao para um teimoso como voc, que nem mesmo quer minha ajuda. De qualquer modo, estou aqui. No discuto as ordens recebidas. Adoro meu trabalho, mas acima de tudo, trata-se do meu ganha-po. Se eu no trabalhar, ns no comemos.
Nathan no precisou perguntar quem inclua aquele "ns". Notara a pulseira de barbante tranado no pulso de Faith. No era uma pea de valor artesanal e, de repente, Nathan compreendeu porque ela a usava.
A pulseira fora confeccionada por uma criana, o filho dela. O adorno gritava "famlia" como uma sirene ecoando no meio da noite. E, famlia, era uma palavra que Nathan eliminara definitivamente de sua vida. Mais uma razo para no querer Faith Reynolds por perto. Ela tinha um filho. Valorizava-o. Usava os tesouros dele para todo mundo ver. Nada mais importava. A mulher tambm no importava. Ela representava um tabu.
Respirando pesadamente, Nathan passou a mo pelos cabelos, com dificuldade. Fitava-a com o olhar apertado e o queixo levemente erguido, preparado para mais uma batalha.
Faith conteve-se para no dizer-lhe que estava perdendo tempo. O Dr. Anderson estava furioso e irredutvel. Nathan Murphy transformara-se em prioridade para o hospital. A administrao e o Dr. Anderson haviam lhe concedido tempo, um tempo considervel em termos teraputicos, para recuperar-se da tragdia e voltar ao trabalho. Agora, estavam decididos a lev-lo, mesmo gritando e esperneando, de volta ao mundo dos vivos. Ele era valioso demais para ser posto de lado. Murphy e seus dedos mgicos eram o trunfo que as finanas abaladas do Southeastern Illinois Memorial precisavam. A sorte grande. Um nome a ser recuperado. Por Faith.
Havia muita coisa em jogo na recuperao daquele homem. A prpria reputao dela. Por esse motivo, ela estava na casa dele.
Porm, era s por essa razo que ficava? Ela sabia que havia algo mais. Olhando nos olhos de Nathan Murphy, Faith ficara chocada. Lidando com todos os tipos de pacientes, aprendera a ler e a conhecer a alma de cada um deles. Vira medo e frustrao, raiva e amargura, dor e desesperana. Porm, assustava-se com o olhar daquele homem. Lembrava-se do Nathan Murphy que vira havia dois anos. Ele irradiava energia e alegria de viver. As pessoas comentavam isso. Mas, esse Nathan, o novo Nathan... Faith no concluiu o pensamento. O velho Nathan poderia ser perigoso, mas estava vivo.
Ela sabia porque o Dr. Anderson estava empenhado na recuperao de Nathan. Faith tambm queria a volta do Dr. Murphy com seus dedos mgicos. Mesmo que ele se recusasse a cooperar com o tratamento, ela no poderia recuar.
	Por que ficou to calada, srta. Reynolds? No me diga que est tentando achar uma sada gloriosa para ns dois!
Nathan virou o rosto. Notando os cabelos compridos dele, Faith perguntou-se se o cumprimento dos cabelos tinha a ver com a falta de cuidados ou se era reflexo da rebeldia que o dominava. Sim, porque no tinha dvidas de que Nathan Murphy era um rebelde e que exercia esse tipo de magia sobre seus pacientes.
Olhou para as mos dele, para os dedos injuriados que haviam salvado muitas vidas, devolvido a esperana para muitas pessoas.
	Nada no mundo me far mudar de idia, doutor.
Olhando-a de novo, ele declarou num tom assustadoramente frio:
? No vou ao hospital para o tratamento, por mais que me ameace, srta. Reynolds. Ningum, nem voc, nem Dan, vo tirar-me desta casa para expor-me  piedade dos outros. Eu respeito minha privacidade.
?  voc quem est dizendo.  Faith inclinou a cabea.  E eu lhe digo. Tenho pacientes agendados para o dia todo. Virei aqui depois do expediente.
Dando um passo  frente, ele se inclinou diante dela.
	Voc tem um filho, srta. Reynolds. Deve cuidar dele. Uma criana precisa da me em casa  noite.
Ela assentiu com um gesto de cabea e um leve sorriso nos lbios.
? Sei disso. Mas, estarei em casa todas as noites, depois que sair daqui. Claro, sentirei muito a falta de Charles. Ele ser um incentivo para eu deix-lo em forma rapidamente, doutor. Quanto mais rpido concluirmos nosso trabalho, mais rpido voltarei para casa.
? timo. Eu lhe enviarei rosas no dia em que desaparecer de minha casa, srta. Reynolds, apenas pelo prazer de v-la bem longe daqui.
Algo parecido com um sorriso curvou os lbios de Nathan. Os olhos, at ento apertados, arregalaram-se pra enfatizar as palavras. Por um instante, Faith permaneceu imvel, fitando os hipnticos olhos verdes. Suspirou, e mais uma vez compreendeu que, um dia, Nathan fora um homem diferente, impetuoso, vibrante. Daqueles que partem o corao das mulheres e cujas mos proporcionam muito prazer, alm de salvar vidas.
O pensamento provocou-lhe um arrepio na espinha.
	Tenho certeza de que ambos aguardamos ansiosamente seu completo restabelecimento, Dr. Murphy. Bem, agora preciso ir. Com certeza, a bab de Charles
quer ir para casa. Voltarei- assim que conseguir uma bab para cuidar dele depois do expediente.
Lentamente, caminhou em direo  porta. Nathan seguiu-a.
? Certifique-se de contratar uma bab responsvel  ele a advertiu.
? O qu?  Surpreendida, Faith voltou-se. Ele estava muito prximo, to prximo que ela inclinou a cabea para olh-lo.
? Uma bab responsvel.  ele repetiu. O tom spero traa a dificuldade com que ele proferia as palavras.  No quero uma criana aqui. No suporto cenas familiares. E no aceito argumentos, nem discusses a esse respeito. Certo?
Era mais do que um pedido. Mais do que uma ordem. Os olhos de Nathan estavam frios, embaados, mascarando a dor que o atormentava. Suas palavras eram uma splica. Ele tivera uma filha... e a perdera.
Faith compreendeu.
	Encontrarei algum competente  garantiu. Faith ainda sentiu o olhar de Nathan em suas costas enquanto seguia para o carro. Depois, ele fechou a porta.
Ela concordara com algo que no pretendia cumprir. Permitira que Nathan controlasse a situao. Pelo menos agora, sabia que no precisava preocupar-se. Nathan Murphy a odiava. Tambm no suportava crianas. E famlias.
Isso era uma ddiva.
No teria problemas para manter um relacionamento puramente profissional com um homem como ele. Jamais precisaria preocupar-se com a proximidade daquele homem.
Algumas horas depois, Charles estava quase dormindo. Fechando o livro de histrias que lia em voz alta, Faith beijou o rosto do filho e ajeitou as cobertas.
De repente, Charles sentou-se na cama.
? Voc pensou a respeito da feira cultural? Sobre meu pai?  ele indagou.
? Pensei um pouco, Charles. Conclu que seria muito bom voc ter um pai. Porm, essas coisas levam tempo. No so to simples como voc pensa.
? No entendo. Voc conhece algum, d-lhe um beijo demorado e depois se casa. Voc no assiste tev, mame?
Faith sorriu, imaginando o que o filho assistia durante o dia enquanto ela estava fora. Mas, como aquele no era o momento para discutir o assunto, limitou-se a dizer:
	Charles, voc sabe que aquilo que acontece na televiso no  real.
O menino encolheu os ombros.
	Sei. Voc j me explicou. Mas, como vou encontrar um pai?
Ela no tinha a menor idia. Entretanto, no podia destruir as esperanas do filho, nem abalar sua confiana nela. Afagou os cabelos dele. Pegou o urso de pelcia dos ps da cama, entregando-o a Charles.
? Bem, talvez, seja melhor comearmos definindo o tipo de homem que procuramos. Deve ser algum do gosto de ns dois e com quem possamos viver, voc sabe disso.
? Sei. Os pais so casados com as mes, tambm. Ele tem que gostar de aspargos porque voc gosta de cozinhar aspargos.
Faith riu.
	Claro que no queremos que ele tora o nariz para a minha comida. Porm, eu me refiro ao tipo de pai que voc gostaria de ter. J que vamos procurar, ento, deveremos ter cuidado com a pessoa que estamos procurando. S que tem uma coisa. Voc precisa ficar consciente de que, de repente, poderemos no encontrar ningum. Isso pode acontecer.
Charles refletiu por um instante, depois ergueu a cabea e fitando-a, respondeu:
? Sei.
? Ento, est bem.  Satisfeita por perceber que Charles entendera as regras, Faith sorriu.  Agora, descreva o tipo de homem que voc gostaria de ter como pai.
Ele pulou da cama, voltando em seguida com um caderno e um lpis com marcas de dentes na extremidade.
	Voc escreve.  Entregou-os  Faith.  Pe a "Lista do papai" para no esquecermos do que se trata.
Faith obedeceu.
? Primeiro  Charles comeou.  Quero que ele se parea com o sr. Benson da histria.  Apontou para o livro que Faith estivera lendo.  Gosto do sr. Benson. Alm disso, vi nas figuras que ele tem cabelos pretos e olhos castanhos, como eu. Quero que meu pai se parea comigo como o pai de Billy Wilkins parece com ele.
? Cabelos pretos e olhos castanhos  Faith repetiu, escrevendo as palavras no caderno.  O que mais?
Charles fitou-a.
	No sei. O que voc acha?  Cobriu a boca com a mo, para esconder um bocejo.
Faith sorriu com o esforo do filho lutando contra o sono.
	Acho que deveramos pensar nisso quando ambos estivermos mais despertos. Afinal, temos tempo. Os pais do mundo no vo desaparecer numa noite.
Charles mostrou-se em dvida, mas outro bocejo obrigou-o a concordar.
	Melhor deixar para pensar depois que o pai de Scottie for  escola.
Faith beijou-o na testa e ajeitou-o na cama. Saiu do quarto pensando nas palavras que escrevera. Cabelos pretos e olhos castanhos.
Os primeiros pressentimentos do dia estavam certos. Muitas coisas maravilhosas haviam acontecido. Sobrevivera  entrevista com Nathan Murphy. E, mais ainda, ela e Charles haviam iniciado a busca ao homem perfeito.
Cabelos pretos e olhos castanhos. Fazia sentido.
No dia seguinte, reformularia sua agenda para abrir espao para um gigante agressivo de cabelos loiros e olhos verdes. Mas, ele no lhe causaria problemas.
Leu as palavras novamente. Cabelos pretos e olhos castanhos.
Fechando a porta do quarto, sorriu. Seu filho queria um pai com cabelos e olhos da cor dos dele. Era uma escolha sensata. 
Teria que empenhar-se ao mximo para encontrar o que ele queria.



CAPTULO II

Faith reconhecia que ela e o Dr. Anderson haviam vencido um grande obstculo. Porm, no dia seguinte, bastou entrar na casa de Nathan Murphy para compreender que sua tarefa seria rdua.
Carregada com os equipamentos, abriu a porta e entrou na casa, dando de cara com o segundo boto da camisa de Nathan. Recuando alguns passos, enfrentou seu olhar hostil.
	Est atrasada, srta. Reynolds  observou.  Outra vez.
Ele estava com as pernas entreabertas, braos cruzados, enfatizando o peito sob a camisa branca. Era muito mais alto do que ela. Muitas mulheres ficariam intimidadas. Ou intrigadas.
Faith apenas lanou rpido olhar para o corpo expressivo, detendo-se nas mos que deveriam estar rodeando os bceps. Ele no sabia o que fazer com as mos, as mos que, um dia, haviam sido flexveis, talentosas, capazes de realizarem as cirurgias mais delicadas.
	Que bom saber que estava preocupado!  ela disse, abrindo-se num sorriso.
Nathan contraiu os maxilares.
	Preocupado no  bem o termo, srta. Reynolds. Estou apenas decepcionado por voc ter voltado. Eu esperava que fosse razovel e desistisse.
	Razovel?  Faith arregalou os olhos.  De onde tirou a idia de eu seria razovel? Os bons fisioterapeutas no o so. So pessoas intrometidas, autoritrias que no conhecem o significado da palavra desistir. Alis, o que  muito bom. Muitas pessoas que hoje danam tango ainda estariam presas a uma cadeira de rodas, se o terapeuta delas fosse razovel. Agora, estenda as mos.
Nathan no se moveu.
? Estenda as mos, Dr. Murphy  ela repetiu lentamente.
? Para qu?
? Para isto.  Mostrou a caixa que carregava.  Coloque-a em algum lugar, Vou buscar o restante dos equipamentos no meu carro.
Ele continuou imvel.
	Olhe, Dr. Murphy. No  pesada e garanto que no h dinamite dentro. Voc tem braos e palmas da mo. Use-os.
Com isso, Faith praticamente atirou a caixa na direo dele. Num gesto instintivo, Nathan abriu os braos, pegando-a no ar. Faith conteve um sorriso. Felizmente, os reflexos dele ainda estavam bons.
Contudo, ela no fez nenhum comentrio. Nem um elogio para um homem que vegetava havia dezoito meses. Ela no saberia explicar o motivo. Normalmente, no poupava palavras de incentivo a cada passo conquistado. Porm, alguma coisa em Nathan, seu olhar, ou sua postura talvez, dizia que ele no aceitaria os cumprimentos dela, que ele recuaria diante de uma nica palavra. Ento, ela se calou, esperando que ele reconhecesse seu pequeno progresso.
Ele parou junto  mesa empoeirada. Equilibrando a caixa e tentando abrir espao para coloc-la.
	A propsito, doutor  ela continuou.  Atraseime porque, quando fui verificar os equipamentos, encontrei-os bagunados. Por acaso, voc no teria ligado para o hospital e pedido para algum sabotar minha lista de material?
Nessa altura, com dificuldade, Nathan conseguira lidar com a caixa. Ele olhava para Faith, com uma sobrancelha erguida e o esboo de um sorriso irnico nos lbios.
	O que acha, srta. Reynolds?
Por breves segundos, Faith sustentou o olhar intenso e desafiador. Encolhendo os ombros, ela sorriu.
? Acho que seria muito mesquinho mesmo da parte de algum que no gosta de mim, como voc.
? Acredite, se houvesse uma maneira de livrar-me de voc, eu teria tentado.
? E bom saber.  Ela abriu a porta.  At mesmo a ira pode ser positiva quando contribui para tirar algum do estado de apatia. Lembrarei disso quando voc precisar de uns puxes de orelha durante o tratamento.
Com rapidez espantosa, Nathan aproximou-se. Ela recuou. Mesmo assim, estavam muito prximos. O calor e o cheiro msculo envolveram-na, fazendo com que se sentisse ainda mais consciente daquela proximidade. Ela poderia tocar-lhe a face com a ponta do dedo. se quisesse. Os olhares se encontraram e a expresso dele no tinha nada de gentil ou amistosa.
	Nada a abala, no , srta. Reynolds? Eu a insultei, ameacei e praticamente expulsei-a de minha casa e voc continua aqui, falando que ser timo eu ficar
furioso. Agora, eu lhe pergunto. O que fazer para livrar-me de voc?
Faith no respondeu. Continuou a fit-lo nos olhos. Aqueles olhos que falavam com ela, que perscrutavam-na, E, ela no queria aquilo. No queria sentir absolutamente nada por aquele homem, alm do interesse profissional. No poderia sentir mais nada, no se permitia. Ele a abalava. Mas jamais admitiria a verdade para Nathan Murphy.
 Com licena, voltarei num minuto  afirmou, lutando para mostrar-se impassvel.  Deixei alguns aparelhos no carro. O infravermelho e o banho de parafina. No demoro.
Nathan respirou longamente. Recuou, dando-lhe mais espao para passar. Seu olhar continuava srio, perdido, e o corpo tenso.
Os poucos minutos de solido foram suficientes para Faith voltar a respirar normalmente e colocar os pensamentos em ordem. Nunca duvidara que no seria fcil. Na verdade, quando alguma coisa fora fcil para ela? Nunca. Nunca tivera algum que a ajudasse. Sempre dependera de si mesma, do seu trabalho. E o fato de no ter tido uma vida despreocupada, com certeza s contribura para seu fortalecimento moral, para sua independncia e sucesso profissional. Tornara-se uma mulher forte e no desprezava as chances que apareciam em seu caminho. Como o trabalho com Nathan Murphy. Preferia no t-lo aceito. Mas aceitara, para provar que tinha capacidade para cuidar dele, e tambm porque precisava. Assim, poderia proporcionar ao filho uma vida melhor do que ela tivera.
Com o tempo, ela se acostumaria. Nathan Murphy seria mais um na lista enorme de pacientes. Tinha que convencer-se disso.
Quando entrou na casa com o restante dos equipamentos, Faith compreendeu que todos os avisos com relao a Nathan Murphy eram inteis. Ele estava jogado numa cadeira, as pernas compridas esticadas e os olhos fechados. Assim que ela se aproximou, ele os abriu, contemplando-a com um olhar devastador.
	Vai demorar, moa?  perguntou ele com jeito indolente.
Faith ergueu a sobrancelha.
	Por que? Voc tem algum compromisso? Um coquetel, talvez?  Fingindo no notar o rosto vermelho de Nathan, ela prosseguiu:  Bem, respondendo  sua pergunta, saiba que demorarei o tempo que for necessrio. Fisioterapia no  um passeio pelo quarteiro, doutor. Lembre-se disso.
Nathan levantou-se num salto e comeou a andar pela sala. Ela no se intimidou. Continuou preparando o banho de parafina.
? Voc ter que mergulhar as mos aqui por uns vinte minutos, para amaci-las  ela explicou, apontando para o recipiente onde preparava o banho.
? Conheo muito bem os benefcios do banho de parafina, srta. Reynolds.
Por um instante, Faith colocou-se no lugar de uma paciente sob os cuidados de Nathan Murphy. A idia provocou-lhe um arrepio na espinha. Essa reao deixou-a contrariada. Afinal, perdera a conta dos pacientes do sexo masculino que atendera e a terapia nunca ultrapassara dos limites clnicos. E, no entanto, de repente, l estava ela com pensamentos perigosos envolvendo Nathan Murphy apenas porque ele tinha olhos sedutores e voz aveludada.
Jogou a parafina no container para esquent-la. Para puxar assunto, disse a primeira coisa que lhe veio  cabea.
	Nunca trabalhei com algum ligado  medicina.  um pouco...
	Irritante?  Nathan interrompeu-a num tom de satisfao.
	O termo  bem adequado  admitiu ela, erguendo a mo num gesto vago no ar.  Olhe, doutor, j atendi altos executivos, membros do clero, muitas pessoas que irradiavam autoridade, e, no entanto, nunca me causaram o menor problema. Um mdico, porm, pode tornar-se um grande problema. Somente um de ns dever exercer o comando, porque a fisioterapia  um misto de cuidados e controle. Como uma cirurgia, imagino. Se tentar interferir no meu trabalho, poder prejudicar-se, causando danos irreparveis a voc mesmo.
Fitando-o, notou um brilho rebelde nos olhos dele.
	E, por favor, no se atreva a afirmar que suas mos j esto irremediavelmente prejudicadas  ela o avisou com o dedo em riste.  Se voc for o mdico que todos dizem que , ento, saber que no  verdade. Desde o incio, voc se recusou a submeter-se ao tratamento adequado e, tanta teimosia s contribuiu para retardar sua recuperao. Se insistir em ameaar de alguma forma sua recuperao, eu... bem,
quem sabe? Posso perder a cabea e brigar com voc. Nesse caso, ambos estaremos em maus lenis. Entendeu o problema?
Faith se exaltara e, de repente, percebeu que estava inclinada sobre ele, que a olhava com as sobrancelhas erguidas.
	 sempre assim to inflamada em relao ao seu
trabalho, srta. Reynolds? Ou sou eu quem .a deixa assim?
Ela abriu a boca, mas, por no saber o que falar, fechou-a rapidamente. No pretendera ter se exposto tanto diante dele. Mesmo sendo extremamente dedicada ao trabalho, no era dada a discursos apaixonados. Nem ameaadores. Na verdade, permitira que ele visse que a irritara e isso a embaraara.
Rapidamente, terminou de preparar o banho. Aquele era apenas mais um trabalho, repetiu a si mesma. Nathan Murphy era apenas um paciente como os outros. Sentiu-o s suas costas, muito prximo. No via os movimentos dele, mas sentia-os. Sabia que ele estava ali.
	Mais alguma lio de sabedoria para descarregar sobre mim, srta. Reynolds?
Mais uma vez, a voz grave, aveludada, penetrou nos sentidos dela.
	Sim.  Faith testou a temperatura da parafina. J deixara bem clara sua posio no contexto. Agora, avanaria um pouco mais.  Gostaria que esquecesse as formalidades. Meus pacientes e eu costumamos nos tratar pelo primeiro nome. A terapia, queira ou no,  uma espcie de relacionamento muito pessoal. Os ttulos so dispensveis.
Faith esperava por mais resposta custica. Mas, surpreendentemente, Nathan Murphy limitou-se a concordar.
	Ok... Faith.
De imediato, ela admitiu que cometera um erro. Seu nome soava com intimidade no lbios dele, como uma carcia em vez de uma palavra. Mas, no tinha como voltar atrs.
	Bem, Nathan, poderemos comear nosso trabalho. O nome tentava seus lbios. Faith sentiu como se dissera alguma palavra obscena, proibida e, mental mente, repetiu vrias vezes. Nathan. Nathan. Nathan. Com o tempo, ficaria mais fcil. Normal. Como os de mais pacientes.
Com um gesto de mo, indicou a cadeira para Nathan sentar-se. Ele continuou em p, encarando-a.
	D-me uma boa razo para obrigar-me a sentar e fazer o que me manda  ele protestou.
	Darei vrias, se quiser. Primeira. Por acaso, estou sabendo que o Dr. Anderson colocou-o contra a parede. Do contrrio, voc jamais permitiria que eu entrasse em sua casa. Segunda. Garanto que, se no sentar-se imediatamente, no se livrar de mim, pois estou preparada para passar a noite aqui, se preciso. Chega ou quer mais?
Os maxilares dele se contraram no momento em que Faith mencionara o ultimato do Dr. Anderson. Ainda assim, permaneceu parado, imvel, expresso sria. Finalmente, ele deu um passo na direo dela.
	No ser bom para seu filho, se passar a noite aqui.  A voz soou estranhamente calma. Algum com o olhar to devastador quanto o de Nathan Murphy jamais poderia gritar.
	No, Nathan, no ser bom. Nem para Charles, nem para mim. Sentimos muito a falta um do outro. Mas no creio que se importe com isso, no ? Suas opinies so muito claras a esse respeito.
 meno ao nome de Charles, Nathan cerrou os punhos. Sabendo da histria dele, da tragdia que se abatera sobre a famlia dele, Faith compreendeu que ele sofria com a perda da filha. Estava a ponto de pedir desculpas, quando Nathan sentou-se, espalmando as mos sobre a mesa.
	Acontece que s tenho uma cama, moa. E, voc, tem cara de quem puxa o lenol para seu lado.
Faith mergulhou a mo dele na parafina.
	Acredite-me, Nathan. Se eu tiver que passar a noite aqui, quem vai puxar o lenol de quem ser a ltima das suas preocupaes. Jamais o perdoaria por obrigar-me a chegar a tal ponto.
 E, por magoar seu filho.
Faith interrompeu seu trabalho e fitou-o.
 No fui eu quem incluiu Charles na conversa.
Desviando o olhar, Nathan mudou de assunto com a maior naturalidade.
 Quanto tempo voc disse que vai durar este banho?
 No muito. Comearemos aos poucos.
 medida que desenvolvia o trabalho, Faith compreendeu que nunca seria fcil lidar com Nathan. Sempre conseguira estabelecer uma certa camaradagem com os pacientes, mesmo mantendo uma distncia profissional. O que no estava acontecendo com relao a Nathan.
Seguindo as instrues de Faith, ele comeou a movimentar os dedos h tanto tempo imobilizados. Como sempre, ela estava alerta a qualquer indicao de cansao ou de dor por parte do paciente.
	No precisa policiar-se tanto perto de mim  ela o avisou.  No  segredo que seus dedos perderam muito da flexibilidade. Portanto, no tenha receio de gemer ou reclamar da dor.
	O que espera? Que eu abra o berreiro como um beb?
	S quero saber o que voc est sentindo.
	Esquea, Faith. Esmiuar a minha vida est fora de cogitao. Pouco me importam suas ameaas.
Faith respirou fundo.
	No estou pedindo para contar-me coisas que no so de minha conta. S quero ajud-lo.  Uma mecha de cabelos caiu-lhe no rosto quando inclinou-se na direo dele.  Tudo o que precisa  ser um pouco honesto comigo.  muito importante eu saber se est cansado ou se sente dores. Do contrrio, ser mais doloroso do que til.
Nathan tambm se inclinou e os lbios dele estavam to prximos que Faith podia sentir o calor de sua respirao. Ele espalmou as mos sobre a mesa de modo que os dedos ficaram perigosamente perto do corpo dela.
	E voc quem est no comando, Faith. Estou obedecendo direitinho suas ordens. Mas, pedir-me para agir feito uma criana  demais.
	No estou pedindo nada disso. Nem poderia.  Com as mos dele a apenas alguns centmetros da linha dos seus seios, Faith era incapaz de pensar nele de outra forma, exceto como homem. Mais uma vez, ficou muito contrariada consigo mesma.
Isso no deveria acontecer. Nunca acontecera. Permitir-se pensar em Nathan como algo mais que um paciente era loucura.
	Vamos parar um pouco  ela anunciou, evitando olh-lo.  Voc precisa de descanso e eu tambm.
Ela precisava de descanso, sim. Pelo menos alguns minutos para recompor-se e corrigir a linha de pensamento, colocando Nathan na condio de paciente e no de homem.
	Sou uma pessoa honesta, Nathan, e gostaria que fosse honesto comigo, tambm.
Ele a fitou por longo momento, refletindo sobre as palavras dela. Era natural que quisesse ter certeza que ela no estava apenas querendo manipul-lo. As preocupaes dele eram vlidas. Ningum gostava de condescendncia.
Finalmente, ele balanou a cabea.
	Tudo bem. H um certo desconforto, mas nada de insuportvel.
No era a resposta que ela esperava. "Insuportvel" era um termo relativo. Mas, deveria contentar-se com o pouco que conseguira dele.
	Vou buscar algo para bebermos, se no se importar  ela disse.
Ele estendeu a mo, impedindo-a de levantar-se.
	No. Isso no faz parte do acordo. Voc termina seu trabalho e vai embora.
Faith soltou um suspiro de frustrao.
	Ora, voc  mesmo um cabea dura, no? Estamos trabalhando h algum tempo. Creio que um copo de gua no far grande diferena na questo de horrio.
Decidida, ela se levantou e foi para o fundo da casa, onde imaginou ser a cozinha. Nathan apressou-se para ir atrs dela. Ao entrar na cozinha, Faith parou de repente. A confuso era generalizada. Havia pratos e copos espalhados por todos os cantos, a pia estava cheia de loua por lavar. Parecia que um furaco passara por ali.
Ela recolheu alguns pratos e copos e ao coloc-los dentro da pia, sentiu que um estilhao de vidro feria seu dedo. Mordendo o lbio, ela apertou o dedo na palma da mo.
Lentamente, ela virou a cabea para olh-lo. Nathan desviou o olhar.
	Vamos dar um jeito nisto tudo, Nathan. Conheo uma mulher que cozinha e faz faxina.  muito boa e precisa trabalhar.
	Tinha uma pessoa que trabalhava aqui, mas foi embora. Eu disse a Dan que no quero ningum por perto.
	Entendo. De qualquer forma, vou conversar com essa senhora. Ela  muito discreta e voc nem vai notar a presena dela.
	Eu disse tambm...
	Por favor.  Faith levantou a mo.  No diga nada. Sei que prefere ficar sozinho. Mas, considerando o estado desta cozinha, da casa toda, alis, no duvido nada que j no tenha visitantes indesejveis durante a noite. Pela ltima vez, Murphy, no discuta comigo. Do contrrio, serei obrigada a...
	No perca seu tempo com discursos, Faith  ele a interrompeu.  Sei que est pronta para acampar aqui se eu no concordar com todas as suas idias, se no obedecer a todas as suas ordens. Tudo bem, faa o que quiser. Convide uma mulher para limpar a casa, convide um exrcito de mulheres, se isso lhe agrada. Estou disposto a qualquer coisa, desde que eu me livre de voc!
Na verdade, Nathan no queria ningum mais naquela casa, alm dela. Porque ela era a nica que o fazia estremecer. Era a nica com cabelos cor de mel que exalavam o cheiro de limo e caam como cascata pelos ombros para brincarem na suave curva dos seios. Seios dignos de serem acariciados. Se suas mos fossem capazes. Se ele tivesse disposto a...
Mordendo o lbio, ela concordava com movimentos lentos de cabea. Apesar da postura autoritria que ela assumira, Nathan podia notar a vulnerabilidade estampada nos olhos azuis-esverdeados. A custo, conteve um sorriso. Afinal, ela no era to forte quanto se mostrava. No perderia aquela chance de expuls-la de casa, de sua vida, o mais rpido possvel. Ela e o filho, cujo nome nem queria ouvir.
Se fazer tudo o que ela mandava significava livrar-se dela, ento, ele o faria. Depressa.
Quando Faith abriu a torneira, ele notou o sangue na mo dela.
? Voc se cortou.
? No foi nada.
	Como no foi nada? Droga, Faith, chame a mulher! A culpa foi minha por ter deixado um copo quebrado a dentro! Chame-a. Hoje mesmo.
	No se preocupe, Nathan. S preciso de um band-aid.
Ele a olhou desolado, sentindo-se intil, como no se sentia desde o acidente.
	No tenho nem mesmo um band-aid  confessou ele.
Para espanto de Nathan, ela riu. No. Gargalhou. Ele estava envergonhado, deprimido, e ela gargalhava.
	No se ofenda, Nathan. Voc no  o nico no mundo. Por acaso, eu tenho uma caixa na bolsa. As mes sempre carregam um estoque, por precauo.
Voltando para a sala, abriu a bolsa de onde tirou um band-aid verde fluorescente. Colou-o no dedo.
	 a cor favorita de Charles  explicou.  Venha. Vamos terminar nossa sesso antes que voc comece a discutir.
Ela era impossvel, incrvel. Outra mulher o teria deixado sozinho h horas. Depois do modo como ele a tratara no dia anterior, Faith deveria t-lo deixado falando sozinho. No a culparia por isso. Mas, ela estava sorrindo. Brincando. Implicando. Imaginando que, talvez, ela agisse da mesma forma com todos os pacientes, Nathan sentiu que o antigo mau humor voltava.
Com ar de poucos amigos, ele estendeu as mos sobre a mesa. Faith segurou-as, reiniciando as massagens e explicando os exerccios que ele deveria fazer durante o dia seguinte.
	Onde est sua pulseira?  ele indagou repentinamente.
	Minha pulseira?  Ela o fitou surpresa.  Oh, no uso jias quando estou trabalhando!
	Seu filho sabe disso? As crianas ficam magoadas quando do um presente  me e ela no usa. Principalmente quando a me no fica em casa por causa de um paciente teimoso.
Faith soltou as mos dele.
	Charles entende o significado do meu trabalho, pelo menos at onde seus seis anos permitem. Ele sabe que no posso trabalhar com jias, mas, estarei com a pulseira quando chegar em casa. Amanh, haver outro presente qualquer. Charles est sempre fazendo alguma coisa nova. Um desenho, uma colagem. Qualquer coisa que guardarei num lugar especial e ele sabe disso.
	Ele no fica enciumado?  Nathan resmungou. Pousou as mos nos joelhos.
	Charles no tem cime dos meus pacientes. Ele sabe que  meu trabalho e que ele  a pessoa mais importante para mim. A nica pessoa que preciso e quero no meu mundo.
As palavras dela soaram como um aviso aos ouvidos de Nathan.
	O que ele acha de voc trabalhar  noite?
Ela encolheu os ombros e o perfume de limo flutuou no ar. Os seios beijaram o algodo da blusa. Nathan pressionou as mos contra os joelhos.
	Ainda no sei. Esta  a primeira noite sem mim. Imagino que ser difcil para ns dois. Mas, ns nos acostumaremos.
Ela fez meno de continuar as massagens, mas ele no estendeu as mos.
	Chega por hoje, no? V para casa, Faith. Volte para seu garoto.
Faith o encarou, comprimindo os lbios. Nathan sabia o que ela ia dizer. Fechou os olhos e estremeceu com a imagem de um menino espiando pela janela,  espera da me que ainda no chegara em casa.
	V, Faith  repetiu.  Por favor.
Seguiu-se um breve silncio.
	Ok. Voc tem razo. No vamos exagerar correndo o risco de estressar seus msculos logo no primeiro dia.
Nathan respirou aliviado, livrando-se do sentimento de culpa. Culpa que o incomodava desde que imaginara o menino fazendo um presente para a me e esperando impacientemente pela volta dela. No queria pensar em garotos de seis anos de idade. Nem em mulheres suaves com tristes olhos azuis-esverdeados.
Nathan levantou-se enquanto Faith guardava o equipamento.
	Voc tem idia de quanto tempo vai levar at... voc se dar por satisfeita?
	No sei. Vai depender de voc e das limitaes do seu corpo. Mas, asseguro que trabalharemos muito para terminarmos o mais rpido possvel.
Meio contrariado, Nathan a observava. No queria prestar ateno nela. No queria notar como ela era pequena e bonita. No queria notar a alvura dos braos dela, nem como a cala branca marcava seu corpo quando ela se abaixava para pegar algo.
Sentar diante dela fora um tormento e no pela dor fsica causada pelas massagens. A fragrncia de limo exalada dos cabelos dela fazia com que ele desejasse chegar-se mais prximo at invadir seu espao. E a pele? Faith Reynolds tinha pele perfeita para ser tocada com os lbios, com os dentes, com a lngua. A nsia de estar bem prximo, de respirar o perfume dela, pegou-o de surpresa, deixando-o furioso. Com ele. No com ela. Faith parecia alheia ao seu apelo sensual, ao magnetismo, que despertavam-lhe as necessidades que enterrara havia muito tempo. Necessidades que ele no pretendia atender, por maiores que fossem as provocaes.
E, quando ela falava no filho... No, ele no queria pensar nisso. No se permitiria mais um nico pensamento que envolvesse aquela mulher e o filho dela. Pensar era s o que ele podia fazer e ele aprendera que pensar em coisas que estavam alm das limitaes, fora do alcance, poderia levar um homem  loucura.
	Nathan?  Ela estava em p diante dele. Apesar do sorriso, a expresso era de cautela.
Era hora recuar um passo. Talvez mais de um.
	Imagino que voltar amanh.  Nathan esforava-se para mostrar-se distante, pelo menos na voz.
	Acertou. At amanh, Nathan  ela se despediu, tocando-lhe o brao.
A mo dela era macia como veludo, os dedos espalharam um frescor sob o calor da pele dele. Nathan conteve a respirao.
Ele teria rido se no estivesse to chocado com a prpria reao. Passara uma hora com ela massageando suas mos e nada acontecera. No entanto, bastara a sentir a mo dela em sua pele para ver-se envolvido por estranhas sensaes
Estava envergonhado. Pelo modo como Faith se retraiu de repente, pelo brilho alarmado que surgiu nos olhos dela, Nathan chegou at a pensar que, talvez, tivesse deixado escapar alguma palavra. Ou ento, com certeza, ela sentira as pulsaes aceleradas dele sob seus dedos.
Bem depois de Faith ter partido, Nathan ainda olhava pela janela, inconformado com o absurdo de seu comportamento. No era mais um adolescente e, portanto, sabia que era capaz de controlar-se melhor. Principalmente quando essas reaes no significavam nada.
J tivera sua chance na vida, na felicidade, no amor, e ele abominavelmente as destrura. Magoara a esposa e a filha. No estava presente quando elas precisavam dele. No queria mais nenhum tipo de envolvimento. Nunca mais.
Nem Faith, se bem entendera as palavras dela.
O fato de Faith ter erguido suas prprias barreiras, tranqilizou-o um pouco. Ela no estava interessada nele. No como homem.
Isso era muito bom. timo.
Estivera frente a frente com a tentao e a vencera. A partir daquele momento, tudo transcorreria muito bem. No haveria mais problemas. Resistira ao teste do toque.
Porm, na escurido da noite, em meio a sonhos e pesadelos, Nathan acordou com a sensao e a lembrana de suaves dedos femininos acariciando sua pele, queimando sua carne.
A lembrana no era de Joanna. No eram os carinhos de sua esposa. A descoberta feriu sua alma. Joanna. Ele faltara-lhe em vida permitindo que sua carreira tivesse prioridade sobre as necessidades dela. Faltara quando deveria t-la protegido. Agora, ele a traa em sonhos.
Mas, j estava acordado. Afastou a lembrana do toque inocente de Faith. Acordado e muito consciente das diferenas entre sonho e realidade, A realidade mostrava-lhe Faith Reynolds como sua fisioterapeuta e era assim que deveria trabalhar com ela, gostando ou no. A realidade era saber que um dia ela seria apenas uma profissional clnica que passara por sua vida.
Nathan remexeu-se na cama, esperando pelo amanhecer. Logo Faith voltaria e comearia tudo de novo. Deveria dormir, descansar para enfrentar o desafio de lidar com ela. Por enquanto, continuaria deitado, com os olhos abertos, olhando a madrugada. No tinha vontade de dormir, nem de sonhar novamente naquela noite.



CAPTULO III

Faith dormiu mal naquela noite. Na manh seguinte, acordou com olheiras e os cabelos desgrenhados de tanto virar a cabea no travesseiro.
Tudo porque tocara no brao de Nathan. Um pequeno contato, um mero roar dos dedos na pele dele, e seu sangue fervilhara, a viso embaara e os lbios tremeram. E perdera um noite inteira de sono.
Agora, nem mesmo queria mirar-se no espelho. Mas, era um dia de trabalho. Tinha que encarar a rotina diria. Tomar banho, preparar o caf da manh, vestir-se, dar ateno ao filho.
Levantou-se e, apesar dos temores, aventurou-se a olhar para o espelho. No conteve um gemido.
 Oh, no!
O rosto refletido era familiar. Definitivamente o seu. Porm, a expresso melanclica que seus olhos estampavam naquela manh, lembravam o olhar de sua me, Helen Reynolds. Essa semelhana foi suficiente para que Faith empalidecesse.
Sua me passara a vida envolvendo-se com homens errados. Homens que no a queriam, que a magoavam, enquanto Faith a tudo assistia. Faith cresceu e logo cometeu o mesmo erro. Com Jim, o ex-marido.
	De novo, no  murmurou, abrindo o armrio de onde tirou uma aspirina.  Nunca mais.
O encanto se acabara. Ela aprendera a lio da maneira mais difcil. No seria tola novamente. No tinha a inteno de correr atrs de um homem que jamais teria, s porque ele era viril e bonito e provocava-lhe arrepios quando as peles se tocavam. No tinha a inteno de fazer nada que envolvesse as palavras emoes, sentimentos, desejo.
Tinha que levar em conta sua auto-estima, seu orgulho, que eram suas armas para manter a cabea erguida. Mais importante de tudo, tinha que pensar em Charles. Eles eram uma famlia, inseparveis. E, a palavra famlia fora censurada na vida de Nathan e bastava mencion-la para que os olhos deles se tornassem mais escuros e sombrios. Nathan no era para ela e Charles. De jeito nenhum.
Faith passou uma leve camada de maquilagem no rosto. Sua aparncia melhorou. Respirou fundo. Sentia-se melhor, mais firme e controlada. Foi para o quarto do filho. Encontrou-o brigando com a meia.
	Que droga de meia!  ele resmungou.  No consigo cal-la.
	Porque voc a est calando do lado errado, campeo. Est vendo?  Pegando a meia, ajeitou-a no p de Charles. Depois, entregou-lhe a camisa.  Sabe aboto-la?
Charles lanou-lhe um olhar enviesado.
	Ora, me. J sou grande. Claro que sei!
Faith sentou-se, observando o filho abotoar o colarinho da camisa.
J estavam no carro, a caminho da escola, quando Charles surpreendeu-a com a pergunta.
	Mame, como  o rapaz? O de ontem  noite.
Ela apertou as mos no volante.
	O Dr. Murphy? No sei. Ele  apenas um homem que precisa de minha ajuda.
	Por que no o ajuda durante o dia? Por que tem que ir  noite? Mandy reclamou por ter ficado at tarde e a comida dela no  gostosa. Ela tambm no canta, nem pode me ajudar com a lista. Senti sua falta, mame.
Sem pensar, Faith tirou o p do acelerador e encostou o carro no meio-fio. Virou-se para o filho.
	Charles, eu tambm senti sua falta. Demais. Realmente, sinto muito pelo horrio.   Ajeitou o bon na cabea dele.  Esse caso  especial e no ser por muito tempo. Depois, voltaremos para nossa vidinha de sempre. Prometo.
Afagou o rosto dele. Ele era to bonito e to querido.
	S porque ele  mdico? Por isso  especial?
Ela lhe lanou um olhar rpido antes de sair de novo com o carro.
	Em parte  concordou num tom resignado.  O hospital precisa dele.
Seguiu-se um longo silncio. Charles tornou a falar quando j estavam prximos da escola.
	Acho que no gosto muito de mdicos. Aquela lista est com voc?
Pararam diante da escola e Faith ajudou o filho a abrir o cinto de segurana.
? A "Lista do Papai"? No, est em casa.
	Certo. Mas, quando chegar em casa, quero que escreva uma coisa na lista. Certo, mame?
? O que voc quer que eu escreva?
? "Mdico no". Ok?
Faith desceu do carro e deu a volta para ajud-lo.
	Ok  prometeu. Levou-o at o porto e deu-lhe um beijo de despedida.
Um mdico no. Cabelos pretos e olhos castanhos. Faith sentiu-se envolvida por uma sensao de calma. A lista de Charles estava progredindo. Ela mesma no poderia fazer uma lista melhor.
Entretanto, trabalhando num hospital, como trabalhava, as chances diminuam consideravelmente. E, com seus horrios todos tomados por pacientes, ela no tinha tempo. Absolutamente.
Demoraria muito mais do que ela imaginava para encontrar o homem certo para ela e Charles.
Entrar na casa de Nathan era o mesmo que pisar num campo minado. O incidente do dia anterior deixara um clima de desconforto. Nathan estava quieto demais. Desistira de lutar contra ela.
Faith tinha certeza de que ele notara sua reao. No havia como no notar. Quando sara da casa dele, suas mos tremiam tanto que quase no conseguira abrir a porta. Ficava embaraada s em pensar que era to transparente assim.
Prometeu a si mesma que, a partir daquele dia, assumiria um comportamento puramente profissional e que o tocaria somente como fisioterapeuta. Levaria em conta apenas o progresso dele como paciente.
	Ao trabalho, Nathan  ela ordenou, to logo o viu.
Em silncio, ele se sentou e espalmou as mos sobre a mesa.
	Vamos acabar logo com isso  concordou ele, evitando olh-la.
Entretanto, ela no podia ignorar a presena dele. Quando parou para Nathan descansar, no pde evitar que seus olhos vagassem pela sala.
A casa era bonita, ampla, arejada e bem iluminada. Poderia ser acolhedora e aconchegante. No entanto, era vazia e fria. Os poucos mveis eram tipicamente masculinos. As estantes estavam vazias e no havia um nico vaso  vista. As paredes eram brancas e despidas de quadros, fotos, certificados ou qualquer tipo de adorno. Nada. Apenas um porta-retrato pequeno na estante. A foto mostrava um homem, uma mulher e uma menina.
Faith reconheceu o rosto de Nathan, apesar do largo sorriso de satisfao. Um sorriso que ela no conhecia, que ele no exibia mais.
A mulher era bonita, com cabelos e olhos castanhos. A menina lembrava fotos de calendrios. Pequena, bonita, de olhos verdes e covinhas nas faces. Era difcil de acreditar que aquela criana to linda j no estava mais em algum lugar esperando pelo pai.
Lentamente, ela se voltou para Nathan. Ele olhava para a foto, com os maxilares contrados e os lbios apertados. Com um sobressalto, ele virou o rosto e encarou Faith. Estendeu-lhe as mos.
	Estou pronto para recomear.
Ela concordou com um gesto de cabea. Era tudo o que podia fazer, uma vez que ele no admitia nenhum comentrio a respeito da famlia.
Nathan estava impaciente. Tentava comear os exerccios antes das ordens dela.
	Calma, Nathan. No vou desapont-lo. Mas voc tem que confiar em mim. Sou treinada para saber quando  demais, quando devo acelerar ou retardar.
	De novo, estou querendo antecipar-me  voc. Mais um exemplo do quanto os mdicos podem ser irritantes.
	Agora voc falou como o meu filho  ela comentou, rindo. Logo, porm, percebeu o erro.
Nathan no deu mostras de importar-se.
	Imagino que Charles tenha tido experincias desagradveis com mdicos.
	Oh, no. No  nada disso.  Pausou por um instante, na dvida sobre o que dizer.  E que... Oh, nada.
	A julgar pela sua expresso, no acredito no seja nada. Algum problema com o garoto?
	Nada de mais.  Pegou na mo dele, reiniciando os exerccios.  Voc estava certo, ontem  noite. Charles est tendo dificuldade para adaptar-se  minha ausncia.
Uma sombra surgiu no rosto de Nathan.
	Ele tem apenas seis anos, no?  muito criana ainda.
	Realmente. Desculpe se toquei nesse assunto. Desculpe se mencionei Charles. Foi distrao minha. Vamos continuar com nosso trabalho.
Minutos depois, Nathan quebrou o silncio.
	Pedi para voc no traz-lo, mas no precisa desculpar-se por tocar no nome dele, Faith. Voc  a me dele, afinal. Claro que pensa nele.  o seu filho. O
seu mundo.  assim mesmo.
Quando Faith o olhou, Nathan estava srio, sombrio. Nos dias que se seguiram, ela notou que a foto desaparecera. A sala estava totalmente vazia... E Nathan muito mais distante.
Os dias foram passando, e em pouco tempo, Nathan e Faith entraram num esquema cauteloso e impessoal. Ela o conduzia nos exerccios, ensinava-o como exercitar-se sozinho, acompanhava de perto os progressos dele.
Nunca mais o tocara, exceto para o tratamento. Tambm no mencionara mais o nome de Charles, no fizera perguntas pessoais e tentava evitar aqueles olhos fascinantes quando se movia para ajudar Nathan a recuperar as flexibilidade dos dedos.
Nathan era um paciente bom, inteligente, sensato. Porm, ela sentia que ele se tornava mais agitado a cada dia. Sentia a lava incandescendo sob a superfcie.
Um dia, encontrou-o olhando para a bola de borracha com a qual se exercitava.
Assustado com a chegada dela, Nathan sorriu.
? Estou comeando a odiar bolas vermelhas. Erguendo uma sobrancelha, ela tambm sorriu.
? Posso trazer uma azul.
Ele se levantou, obrigando-a a erguer a cabea para olh-lo.
Com a ponta do dedo, ele tocou os lbios de Faith, ainda sorridentes. Um pequeno toque de peles, mas, os lbios arderam como se tocados pelo fogo.
	No se preocupe.  Ele afastou a mo que tremia um pouco.  Sobreviverei. Voc est... diferente hoje. Mais feliz. Est tudo bem em casa?
Era primeira vez que ele se referia  conversa sobre Charles, embora a pergunta no fosse especfica.
	Sim. Vejo que voc est apertando com mais fora.  Apontou para a mo dele, mudando o assunto para um terreno mais seguro.
Reassumiram o relacionamento profissional. Era como se nunca tivessem trocado sorrisos, como se o toque de Nathan houvesse passado despercebido. Faith deveria sentir-se feliz. Afinal, fora ela quem escolhera ignorar as preocupaes dele, os contatos, mantendo as coisas no campo impessoal. De repente, porm, queria faz-lo rir de novo, um sorriso de verdade, radiante e devastador. Perigoso.
Havia um bom motivo para querer os sorrisos dele. O processo de recuperao envolvia muito mais do que msculos e ossos. Era to psicolgico quanto clnico. Ela o estava trapaceando, tentando proteger-se em prejuzo dele enquanto paciente. Teria que lembrar-se disso no futuro.
O futuro chegou mais cedo do que ela imaginara.
Uma tarde, um dos pacientes desmarcou a sesso. Faith saiu mais cedo do hospital e foi para a casa de Nathan. Hannah, a nova governanta, estava indo embora.
	Onde est Nathan?  Faith perguntou, olhando ao redor.
? No banheiro, tomando banho.
? No chuveiro? Sozinho?
	Bem... sim.  Hannah olhou-a meio confusa.  O sabo lquido terminou, mas ele no deixou comprar mais. Disse que o tratamos como criana e insistiu em usar o sabonete comum. Ele  um homem muito independente e gosta de arranjar-se sozinho.
Depois que Hannah foi embora, Faith serviu-se de um copo com gua. Estava apreensiva. Como ele estaria se saindo? Ele parecia tenso, ultimamente. Ele precisava de sucessos e no da frustrao de no conseguir lidar com um sabonete. Queria que ele tentasse fazer coisas que o estimulassem, que lhe dessem o prazer da realizao. E, ensaboar o corpo com um sabonete no era bem o que imaginara. Faith admitia que estava sendo um tanto negligente. Deveria ter conversado certos assuntos com Nathan, certificando-se de que ele no precisava de ajuda, alm daquela que Hannah poderia oferecer-lhe.
Aproximou-se da porta do banheiro. Ouviu as imprecaes de Nathan todas as vezes em que o sabonete caa. Quase o chamou, mas conteve-se. Se quisesse ajuda, ele pediria.
Passou-se muito tempo antes de Nathan, finalmente, desligar o chuveiro. Depois, silncio. Com certeza, ele se enxugava.
O pensamento de Nathan com o corpo nu e mido, era demais para Faith. No poderia continuar ali. Tambm, no queria que ele a encontrasse parada na porta do banheiro.
Foi para a cozinha. Nathan deduziria que ela ouvira sua luta com o sabonete. Obviamente, no ficaria nada satisfeito.
	E da?  Faith resmungou.
Sua funo era encoraj-lo, repetindo que suas foras voltariam gradativamente, que as coisas iriam melhorar.
Mas, ao ouvi-lo caminhando em direo  cozinha, esqueceu-se de todos os avisos e recomendaes. Ele parou na porta com o zper do jeans aberto, a camisa desabotoada, descalo e o corpo e os cabelos ainda midos. Seu olhar revelava frustrao. Ao v-la, ergueu o queixo, como se a desafiasse a fazer algum comentrio inadequado.
Dando-lhe as costas, Faith tirou dois copos do armrio, enchendo-os de ch. De repente, percebeu que enchera demais o copo de Nathan. Ele poderia ter problemas para segur-lo.
	Deixe  ele a impediu de esvaziar o copo.  Conseguirei.
Com movimentos que pareciam em cmera lenta, ele colocou a mo no copo. Circulou um dedo ao redor da superfcie. Depois, outro e outro, at que o copo ficou seguro na mo dele. Cerrando os dentes, levou-o  boca. Os ns estavam brancos pelo esforo.
Faith observava em silncio. Depois de depositar o copo vazio sobre a pia, Nathan olhou-a com arrogncia.
	Voc est parecendo minha me quando me via subindo ao telhado para pegar o gato. Previno-a de que se disser "Muito bem, Nathan", eu atiro este copo na parede.
No era o que pretendia, mas, de repente, Faith compreendeu que qualquer coisa que dissesse, soaria num tom de condescendncia. Tornou a encher o copo dele.
	Se voc atirar este copo, ter dois trabalhos extras. Recolher os cacos de vidros e enxugar o cho.
Encararam-se por um longo momento. Ento, os lbios de Nathan se curvaram num sorriso indolente e encantador.
	Voc  esperta, Faith.
Ela prendeu a respirao. Nathan era perigoso e a nica soluo era manter-se bem longe dele. Precisava fazer alguma coisa. No conseguia pensar e fit-lo nos olhos ao mesmo tempo. Desviando o olhar, pegou-se mirando o peito exposto e os pelos sedosos que o cobriam.
	Os botes ainda so um problema  ele explicou, como se adivinhasse os pensamentos dela.
	Posso aboto-los, se quiser.  No queria constrang-lo, mas, notando uma chama surgir nos olhos dele, perguntou-se quem estaria mais constrangido naquele momento.
	Deixe para l, Faith. Vestir-me no faz parte de suas funes.
	J vesti muitos pacientes antes.  Era verdade. S que os outros pacientes no eram como Nathan.
O olhar dele tornou-se mais escuro, mais intenso.
Ela se aproximou e comeou a abotoar a camisa. Instantaneamente inspirou o perfume de sabonete. Perfume de sabonete e de homem. De Nathan. Sob os dedos, sentia as batidas aceleradas do corao dele. Ela vacilou, incerta se deveria ou no continuar.
	Talvez seja melhor deixar a camisa desabotoada  ela sugeriu.  Voc ainda est mido.  Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo.  Est quente aqui.
? Acho que tem razo  ele concordou em voz baixa.
Faith recuou, ainda incerta. Contemplar os msculos do peito de Nathan era to perturbador quando toc-lo.
	Hannah deixou seu jantar  comentou s para mudar de assunto.
Nathan respirou fundo, como se tambm estivesse perturbado com aquela situao. Olhou para a mesa, depois de novo para Faith.
	Janta comigo? Estou faminto. E, francamente, eu... eu gostaria de uma  companhia.
Como recusar um pedido to gentil?
	Boa idia. Hannah preparou comida suficiente para alimentar um batalho.
Nathan observou-a caminhar at o fogo. Sentiu-se aliviado por ela ter-se afastado dele. Ao mesmo tempo, sentiu uma vaga sensao de perda.
Felizmente, ela desistira de abotoar-lhe a camisa. Quando os dedos dela roaram em seu peito, temeu no resistir ao impulso de toc-la tambm. De enterrar os dedos nos cabelos cor de mel, expondo a pele vulnervel do pescoo. Vulnervel para seus olhos. Para seus lbios.
Observava-a preparando os pratos, fatiando a carne. Ela era to pequena, to graciosa. Tinha as mos delicadas, suaves. Ela introduziu o dedo numa travessa para provar da comida. Nathan engoliu a seco, imaginando o calor daquele dedo queimando-lhe a pele do peito. Irritado, tratou de afastar o pensamento. Tentou mentalizar a imagem de Joanna.
Respirou profundamente quatro vezes. Sentiu-se relaxar. Decidiu ajud-la, mais para manter-se ocupado. Abriu uma gaveta de onde tirou os talheres. De outra, pegou os guardanapos.
	Nathan!
O grito de Faith provocou-lhe um arrepio na espinha.
Ela deveria ter se cortado enquanto o ajudava. Virou-se para ela. Mas, ela estava sorrindo e seus olhos brilhavam. Deixando os talheres e os guardanapos na mesa, ele se aproximou, pegando-lhe a mo.
	Faith? Voc est bem?
Ela balanou a cabea com veemncia.
	Nathan, suas mos!  murmurou, olhando para a mo que ainda segurava a sua.  Voc est pegando coisas, apertando coisas! Na verdade, voc est apertando tanto minha mo, que acho que vai quebr-la.
Ele afrouxou os dedos, mas no a soltou.
? Machuquei voc?
	Claro que no! Isso  maravilhoso, Nathan! Eu o estou observando h algum tempo e realmente voc tem segurado os objetos com grande esforo e concentrao. Agora, porm, foi diferente. Voc agiu naturalmente, sem pensar.
Faith estava certa. Ele estivera preocupado em no pensar, em tir-la da mente e no prestara ateno nos prprios movimentos. Pela primeira vez depois de muito tempo, sentia-se um homem. Um homem prestes a tornar-se completo, pelo menos fisicamente. Ele repetira que no se importava com seu estado, que no queria ajuda. Mas, agora, o entusiasmo tomara conta de seu corpo, corria pelas veias como gua fervente.
	Obrigado, Faith.
E, sem pensar, aproximou-se mais, enterrou os dedos nos cabelos dela, pressionando-lhe a cabea.
Ela era to pequena que ele precisou inclinar-se muito para alcanar seus lbios. Isso foi o bastante para sentir-se grande, forte e protetor.
Lentamente, tocou os lbios nos dela, saboreando-lhe o gosto, inebriando-se com a sensao de vigor que o invadia.
Sentiu-a chegando-se mais perto. Sentiu as mos dela em suas tmporas, depois, no pescoo. Sentiu-a correspondendo ao beijo.
Gemendo, Nathan abraou-a com fora. Faith era to pequena, doce, suave. As curvas dos seios contra seu peito despertaram-lhe o desejo de beij-la inteira. Sua cabea girava. Os lbios dela eram como ptalas de rosa. midos, macios, perfumados. Queria-a naquela momento, o corpo nu, as pernas entreabertas num mudo convite.
	Faith, voc  to doce, to atraente. Seu cheiro, seu gosto... Eu quero...
O gemido de Faith, o corpo dela movendo-se contra o dele, fizeram com que Nathan se enrijecesse.
Que diabos acontecera com ele? O que estava fazendo? Aquele era um momento de grande emoo para ambos. No poderia confundir as coisas. No deveria tocar naquela mulher, muito menos envolv-la em suas fantasias.
	Faith, sinto muito.  Recuou alguns passos.  Sinto muito mesmo.
Seguiu-se um silncio longo e constrangedor. Nathan no ousava olh-la. No suportaria ver a mgoa estampada no rosto de Faith. Precisava do calor dela. Muito. Como havia muito no se lembrava de precisar, ou de querer. Muitos anos, no apenas dois. Seu corao se apertou s de pensar nisso. Joanna merecia muito mais. E Faith...
	No se preocupe  ela murmurou, por fim.
As palavras de Faith fizeram-no voltar  realidade. Ela parecia to frgil, to perdida.
Os cabelos caam-lhe no rosto em pequenas ondas que pareciam beij-la quando balanava a cabea. Nathan fechou os olhos.
	No se preocupe, Nathan.  gratido. Isso acontece muito  assegurou ela.  Ambos nos deixamos levar pelo entusiasmo do momento. Foi isso.
Isso acontece muito. Cus, ela dissera isso mesmo? O pensamento de Faith defendendo-se de todos os homens que atendia, deixou-o muito furioso.
	Como eu disse, sinto muito, Faith. Pelo menos, aceite meu pedido de desculpas.
Diante da expresso atormentada de Nathan, ela se limitou a concordar com um gesto de cabea. Depois, forou um sorriso.
	Venha jantar  disse, voltando-se para arrumar a mesa.
? No.
Com o canto dos olhos, viu-o fechando e abrindo a mo.
	Voc precisa ir para casa.  A voz dele soou num tom casual.
Era exatamente o que Faith queria. A lembrana de como perdera o controle nos braos de Nathan, enchia-a de vergonha. Queria desaparecer dali. Soltou um longo suspiro.
	No vou embora enquanto no fizermos nosso tratamento de hoje  avisou-o.  Voc deu um grande passo, sim, porm, ainda h muito trabalho pela frente. Voc 
um cirurgio. Sua coordenao motora deve ser perfeita.
Nathan no discutiu. Em silncio, foi para a sala. Sentou-se e estendeu as mos para Faith comear os exerccios.
Quando, finalmente, ela se despediu, Nathan adiantou-se para abrir-lhe a porta. Ela sorriu e ele soltou um sonoro suspiro.
? Faith?
	Voltarei amanh. E, por favor, Nathan, no pense mais no... no beijo. Como eu disse, essas coisas acontecem. Ser melhor ambos esquecermos o assunto.
Essas coisas acontecem. Essas coisas acontecem. As palavras danavam no crebro de Faith, durante o trajeto de volta para casa.  gratido. Essas coisas acontecem. O nico problema era que essas coisas no deveria acontecer. No para ela.
A reao de Nathan fora natural. Afinal, ele movimentava a mo pela primeira vez, desde o acidente. Fora arrebatado pelo entusiasmo. Mas ela era a fisioterapeuta. Era ela quem devia manter o controle da situao. Desde o incio, estava certa. Nathan Murphy era um homem muito perigoso.
Ele a beijara! Pior ainda, ela correspondera ao beijo. S por um verdadeiro milagre conseguiria dormir naquela noite.
Mais tarde, deitada e com os olhos abertos, esperando silenciosamente que a madrugada levasse suas misrias embora, Faith ouviu seu filho chorando. Levantando-se, correu para o quarto dele.
O dia amanheceu, encontrando-a ao lado da cama de Charles. Ele estava doente, com gripe.
Faith teria que encontrar algum para atender seus pacientes. Tirando o fone do gancho, comeou a discar.



CAPTULO IV
? Nathan?
O som da voz de Faith do outro lado da linha provocou um frisson no corpo de Nathan. Passara o dia tentando no pensar nela. No queria lembrar-se da maciez do corpo dela contra o seu. Nem saber se ela estaria trabalhando com outros pacientes "agradecidos". Por isso, recolocara a foto de Joanna e Amy no antigo lugar, na estante. Como um lembrete do que era realmente importante. Como uma punio.
? Nathan?  ela o chamou de novo.
	Sim. Estou aqui. Algo errado? Por que est ligando? 	A voz soou mais rouca do que pretendia. Talvez, Faith se cansara dele. Talvez, estivesse fechando-lhe a porta, como ele fizera tempos antes. Finalmente, ela ficara esperta.
	Nathan, estou ligando porque eu... Bem, no poderei ir esta noite. Meu filho... Charles est doente. Com gripe. No quero deix-lo. Mas, no se preocupe.
Outra fisioterapeuta me substituir.
Ento, Faith ficara esperta, deixando-o para trs.
Nathan olhou para a foto de Joanna, obrigando-se a fitar a mulher que representava suas falhas. A mulher que estaria rindo naquele momento, se fosse possvel. Sempre fora ele quem cancelara os compromissos com a esposa. Joanna no dizia nada, mas seu olhar de censura incomodava-o, sempre que a deixava sozinha. Ela nunca pudera contar com ele, nem mesmo para proteg-la. Ele no a merecera.
Tampouco merecia Faith. Faith, com seus cabelos cor de mel. Faith, com os olhos azuis, frios quando estava trabalhando, mas que tornavam-se doces quando julgava que ningum estava olhando. No, no merecia Faith Reynolds. Nunca deveria ter provocado a mulher que havia sob a roupagem de profissional competente. A mulher que poderia ser magoada por um homem como ele. Mas, isso no importava mais... Logo ela no seria mais sua fisioterapeuta. Era isso o que ela tentava dizer.
Ela estava desistindo. No era isso o que ele queria, afinal? Quantas vezes repetira que no a queria por perto? Ento, porque a fria? Por que a frustrao?
	Nathan.  Ela interrompeu-lhe os pensamentos.  Oua. A moa que ir  sua casa  Penny Damen. Ela estar...
	No. No quero ningum aqui  Nathan protestou com rispidez.  Minha porta est fechada. Alis, voc me surpreende, Faith. Pensei que nada a faria desistir. Nem mesmo eu. Se  por isso que est preocupada, bobagem. Nunca mais a tocarei. Cancele a outra fisioterapeuta. Daqui para frente, guardarei minha gratido para mim mesmo.
Passaram-se alguns segundos antes que Faith respondesse.
	Voc acha que estou desistindo de tudo por causa do episdio de ontem? Acha que estou fugindo s porque um homem, um paciente...
? Beijou seus lbios? Esse no  exatamente o modelo de procedimento teraputico, no ? Faith, por maior que seja minha surpresa, no poderei culp-la por preferir ir embora.
Nathan quase podia ver o peito dela arfando, os olhos azuis-esverdeados emitindo fascas cor de esmeralda.
	Bem, acho que tenho muita culpa, sim. Que tipo de fisioterapeuta pensa que sou? Algum que muda de idia por qualquer coisa? Algum que bate em retirada sempre que acontece algo inesperado?
Nathan reconheceu que ela estava certa. Lembrou-se de como Faith abalara a fortaleza que ele criara, forando sua entrada no mundo dele, apesar de todos os obstculos e ameaas. No conseguia imagin-la entregando os pontos e desistindo de tudo.
	Ok  concordou ele.  Voc no  covarde. Sei disso melhor do que ningum. Guarde as armas. Voc venceu, Faith. Acredito em voc. Seu filho est doente. Voc no pode vir, mas... bem, no importa. No importam as razes. Apenas no mande outra terapeuta. No, por favor. Esperarei at...
Droga! As razes, as verdadeiras razes que a impediam de ir  casa dele, finalmente o abateram. Nathan suspirou, passou a mos pelos cabelos, tentou no olhar para a foto de sua filha sorridente, como se a felicidade jamais poderia morrer... Como se as crianas jamais poderiam ser magoadas.
	Desculpe, Faith  disse, de repente.  A propsito, como est seu filho?  triste ficar doente quando se  criana...  Ele sabia disso.
	Ele ainda est febril. J est medicado e mais alguns dias, estar bem. Enquanto isso, Nathan... Nathan, voc no pode esperar. Mandarei a srta. Damen substituir-me e ponto final.
? J disse, Faith. No quero ningum aqui. Voc e Anderson so o mximo que posso suportar. Voc sabe que sou uma pessoa difcil, que no costuma colaborar. Olhe, voc vai deixar essa mulher numa situao muito difcil.
	Sei disso, mas, no tem outro jeito. No podemos interromper o tratamento logo agora que voc est progredindo a olhos vistos. Seus dedos precisam muito mais do que flexibilidade. As sesses de fisioterapia no so atividades de lazer.
As palavras de Faith levaram um sorriso ao rosto de Nathan. Reclinou-se na cadeira, imaginando-a com aquele olhar de professora que lhe caa to bem. Um olhar que o cativara e que provocara-lhe o desejo de faz-la derreter-se sob sua boca.
	Atividades de lazer? Moa, voc deve estar brincando! Nunca senti tanta dor, nunca me esforcei tanto s para pegar um lpis ou para atender o telefone. Sim, entendo o que voc est dizendo, mas, eu... bem, isso no muda nada. Esperarei at voc ter tempo para mim, Faith. Se eu tiver que recuperar o tempo perdido, pacincia. No vejo problema nenhum.  Desde que pudesse ganhar algumas horas extras com ela.
A idia o entusiasmou. Ignorou-a. Reprimiu a sensao de estar sendo insensato e tolo. Agarrou-se  possibilidade de a outra terapeuta ser melhor, mais competente, e com isso, poder desligar-se completamente de Faith. No. Anderson garantira que Faith era a melhor. Nathan soltou um suspiro de alvio.
	Esperarei e voc no tem que sentir-se culpada. A escolha  minha.
? Nathan...
	Voc no tem outra alternativa. Cuide de seu filho. Telefone quando ele melhorar.
	Nathan... Por favor. Eu no faria isso se no fosse absolutamente necessrio.
Sua voz soou cansada, triste, preocupada. Nathan julgou ouvir um choro ao fundo. Cobrindo o fone, Faith murmurou alguma coisa gentil, confortante.
Nathan, de repente, reconheceu o quanto estava sendo egosta. Faith j no tinha problemas e preocupaes suficientes sem suas queixas? Ele j no provara que sabia como tornar uma mulher infeliz?
Respirou fundo.
	Tudo bem, Faith. Voc venceu. Mas, no mande ningum aqui. J que no consente que a espere, eu irei  sua casa, quantas vezes forem necessrias. Cuide de seu filho sossegada.
	Mame...  Ele ouviu nitidamente. Fechou os olhos contra tudo o que aquela palavra envolvia, para todos os sentimentos que evocava.
Nathan sentia a preocupao de Faith. Ela queria atender o filho, mas no estava satisfeita com o rumo da conversa.
? Ligo mais tarde  ela prometeu.
	No precisa. Vou  sua casa. No se preocupe como. Sou um mdico, lembra-se? Acostumado a lidar com situaes delicadas. Alm disso, minhas mos esto comeando a obedecer minhas ordens. Algum est me ensinando muitas coisas.
? No, Nathan. Ligo depois.
	No estarei aqui. J pedi para no se preocupar. Cuide de seu filho. Ele precisa de voc.  Com isso, ele desligou o telefone.
Ele sabia que Faith tornaria a ligar. No poderia ignorar o chamado. Estava na hora de sair.
A porta parecia extremamente grande e ameaadora. Havia muito tempo que no ia a lugar nenhum.
Na verdade, havia muito tempo que no fazia absolutamente nada. E, definitivamente, no se lembrava de ter feito algo por algum havia muito, muito tempo. Talvez, devesse no fazer naquele momento. Ir  casa de Faith era loucura. Era arriscado. Era envolvimento demais, algo do qual se arrependeria mais tarde. Algo que deveria encarar eventualmente. Mas no naquele dia.

Faith observava o filho brincando. Ele era to pequeno. E, doente, parecia ainda menor. A nsia de proteg-lo do mundo era muito maior do que o normal. Todos os seus instintos protetores haviam aflorado com fora total.
Estava tensa. Nathan avisara-a que iria  sua casa. Nathan, que um dia lhe ordenara para no levar Charles  casa dele. Nathan, cujos olhos se enchiam de desolao sempre que pensava numa criana de seis anos, de repente, se oferecera para ir at l, mesmo sabendo que encontraria Charles:
E Charles, que decidira que seu "papai" no seria um mdico, justamente por causa do homem que lhe roubava algumas horas com a me, teria que dividir seu espao com o Nathan.
Sim, Faith sentia-se definitivamente tensa, protetora. Preferia que Charles e Nathan continuassem distantes, que nunca tivessem oportunidade de se conhecerem. Estava preocupada pelos dois.
	Charles?
O menino parou de brincar e fitou-a com olhos febris.
	Charles, daqui h pouco, o Dr. Murphy chegar aqui. Voc sabe quem , no?
O gesto afirmativo de cabea foi suficiente. Sentando-se no cho, Faith pegou o filho no colo. Comeou a nin-lo. Roou os lbios na fronte do menino e sentiu-o quente. Estava quase na hora de outra dose do antitrmico.
Suspirando, Charles aninhou-se mais nos braos dela.
	Meninos grandes no so ninados  protestou.
Faith o beijou.
	No  verdade. Quando esto doentes, at mesmo os meninos grandes gostam de serem ninados. Faz parte do tratamento. Ajuda a melhorar e faz com que a doena fique menos grave.
	 assim que voc trata seus pacientes? Como esse mdico que vem aqui?
Ela no conteve um sorriso. Charles era muito transparente em seu cime.
	No, querido. Voc  o nico que recebe este tratamento super, extra, hiperespecial. Mas... quero conversar sobre o Dr. Murphy antes que ele chegue.
? Conversar o qu?
	Bem...  Faith apertou-o com mais fora.  Muitas vezes voc tem medo de certas coisas, no?
Charles jogou a cabea para trs, considerando a pergunta.
	Como os monstros... os que se escondem debaixo da cama?
? Charles, voc sabe que no h monstro nenhum.
? Eu sei, me, mas...
	Ok. Como os monstros, ento. Bem, muitas vezes os adultos tambm sentem medo de algumas coisas.
Os olhos castanhos do menino se apertaram cheios de suspeita.
? Voc tambm est com medo dos monstros? Ela encostou o nariz no de Charles.
? No acabei de dizer que no h monstro nenhum?
? Ok. Talvez, cobras, ento.
Faith ergueu os ombros.
	Talvez, cobras. Mas, no  disso que estou falando. Muitas vezes, as pessoas tm medo de coisas que no assustam a maioria de ns. Como o Dr. Murphy, por exemplo.
? Ele tem medo de alguma coisa? Mas, ele  homem.

	O fato de ser homem no faz muita diferena, Charles. At mesmo os homens mais fortes sentem medo. O Dr. Murphy tem... bem, talvez nem seja medo, mas, sim, um certo desconforto em relao a crianas. Voc entendeu?
	Ele no gosta de crianas?  ele perguntou num tom de descrena.
Faith sentiu uma sensao de alvio, de satisfao. O prprio pai de Charles no o quisera por no gostar de crianas e, no entanto, ele se mostrava to seguro. Charles no sabia nada sobre rejeio... ainda. Ela esperava que essa segurana superasse as provas daquele dia.
	No  bem que ele no goste de crianas. Elas o deixam nervoso,  isso.
? Entendo.
	Ok. Preste ateno, Charles. Vou lhe dar o remdio e quando a campainha tocar, voc vai para a cama. Se no estiver com sono, ento, quero que brinque no seu quarto bem quietinho, enquanto o doutor estiver aqui. Tudo bem?
? Para no assust-lo?
	Mais ou menos. Assim que ele for embora, ficaremos juntos de novo. Acha que pode fazer isso?
Ele refletiu por alguns instantes. Depois, concordou, pulando do colo dela.
	Acho que sim.
Charles seguiu Faith at a cozinha. Fez uma careta quando engoliu o remdio. Depois, encaminhou-se para o quarto.
	Mame?  chamou-a, franzindo as sobrancelhas pequenas.  Se o doutor se assusta com uma criana como eu, o que acontecer se o monstro aparecer de repente?  Comprimiu os lbios.  Sempre pensei que os homens, os pais, no tm medo de nada. Mas, esse doutor... Acho que ele no  muito bom em emergncias. Quero que escreva mais uma coisa na lista: "No ter medo de crianas nem de monstros", ok?
	Claro, escreverei o que quiser na sua lista. Mas, por ora, cama!
Ele no protestou. Enfiou-se embaixo dos lenis.
	Ok. Seu eu acordar, posso brincar com o piano
que Mandy me deu?
Faith mordeu o lbio. Charles precisava realmente descansar. Porm, no seria justo mant-lo confinado no quarto durante a visita de Nathan. Bem, no seria por muito tempo.
	Pode, sim. Se voc no se sentir bem, chame por mim. Certo?
? E se eu tiver vontade vomitar?
	Vomitar? Charles onde voc aprendeu esse termo?
Um acesso de tosse sacudiu o corpo do menino. Faith enlaou-o pelos ombros.
Fitando-a com os olhos vermelhos pelo esforo, Charles forou um sorriso.
	Vi na tev, mame. Voc no assiste tev?
Mais uma vez, Faith pensou que Charles estava assistindo televiso em excesso e, pior, assistindo uma programao inadequada para a idade dele. Se pudesse ficar o dia inteiro com ele... Mas, no era possvel. Decidiu conversar com Mandy na primeira oportunidade. Ajeitou o filho na cama e saiu do quarto.
Sentou-se na sala para esperar. No entendia o motivo de estar to nervosa. A noite anterior j era passado. No significara nada, como dissera a ele. Aquele beijo tambm no significara nada, absolutamente nada.
A casa de Faith era muito pequena. Parecia uma casa de boneca, Nathan observou ao descer do carro. Construda de madeira pintada de branco, a casa era recuada e rodeada por um jardim bem cuidado.
A porta se abriu antes que ele subisse os degraus da varanda. O olhar de Faith no era muito receptivo.
	Voc veio dirigindo?  Ela apontou para a Blazer estacionada diante da casa.  Quem o autorizou a dirigir?
Nathan ainda estava no segundo degrau, de frente para Faith. Os olhos dela no escondiam a frustrao.
	Ser que preciso de sua autorizao antes de alugar um carro e sair dirigindo, baixinha?  perguntou, esperando faz-la arfar novamente.
Fez. Ela arfava. A insinuao de que estava levando a srio demais seu papel, o peito de Faith comeou a subir e descer rapidamente. O tecido da blusa acompanhava os movimentos. Ou fora o tratamento insultuoso que a ofendera? Ou a proximidade dele, a sbita constatao de que, no dia anterior, haviam estado to prximos, a ponto de perderem o controle?
Nathan conteve o impulso de introduzir as mos sob a blusa para tocar a pele macia, at descansar nos seios fartos e rijos. Depois...
Tratou de afastar tais fantasias. Com a ateno voltada para o carro, Faith sequer olhava para ele. No era a proximidade que alterava a respirao dela. Faith estava zangada, muito zangada. Tudo porque ele se sentara ao volante de um carro sem avis-la antes, ele sorriu.
	Acalme-se, Faith. No foi to difcil assim.  Com a ponta do dedo, contornou-lhe os lbios, para arrancar-lhe um sorriso.
Imediatamente, ela recuou, fugindo ao toque.
	Voc poderia ter-se machucado  insistiu ela, afastando-se para dar-lhe passagem.  Se pensa em voltar dirigindo,  noite, depois que terminarmos nossa sesso, esquea, Dr. Murphy. Voc s sair daqui de txi.
	Dr. Murphy?  ele repetiu. Realmente, ela estava furiosa.  Deixa para l, Faith. Estou bem. E, se isso a tranqiliza, saiba que Dan estava comigo quando aluguei o carro.
O argumento surpreendeu-a. Virando os olhos, conduziu-o at a mesa que preparara para a sesso.
	Realmente, s vezes, o Dr. Dan Anderson me espanta  ela confessou.  Ele est fazendo qualquer coisa para t-lo de volta ao hospital.
	Por isso que tenho voc, Faith. Para ter certeza de que serei bem-sucedido.
Pssima escolha de palavras, Nathan admitiu ao notar o rubor cobrindo o rosto de Faith. Suas palavras haviam despertado as lembranas da noite anterior, quando ele definitivamente tentara fazer alguma coisa com sucesso. Faith no mencionaria o assunto, ele sabia. Deveria dar-lhe crdito pelo autocontrole.
Ela prendera os cabelos num coque no alto da cabea. Do jeito que ele, um dia, desejou que ela prendesse, acreditando que seria menos atraente com os cabelos escondidos. Enganara-se. Com os cabelos presos, o pescoo ficava exposto, visvel, vulnervel, vioso. Marfim espreitando sob alguns cachos que haviam escapado.
No passou despercebido  Faith o modo como os olhos dele avaliaram a curva dos ombros, o pescoo, o queixo, os lbulos das orelhas. O rubor tornou-se mais intenso. Ela pigarreou.
? Ento, voc dirigiu bem?
? timo.  Ele espalmou a mo para inspeo. Jamais confessaria que quando ele e Dan pegaram a Blazer, seu corpo ficara banhado de suor, que praticamente obrigara-se a sentar-se ao volante. E, uma vez sentado, ficou longos minutos imvel, ofegante e com a cabea apoiada no rolante.
Dan sugerira que ele deveria praticar por algumas semanas, acompanhado de um terapeuta.
Nathan no suportava a idia de mais algum em sua vida. Ainda nem terminara seu tratamento com Faith. Fechara os olhos, colocara o cinto de segurana e dera a partida. No fora s mil maravilhas, mas conseguira dirigir. Chegara  casa de Faith, inteiro e sozinho. De alguma maneira, voltaria para casa. Faith no imaginava o quanto lhe custara no olhar para o banco do passageiro vazio, para no lembrar-se do acidente e de tudo o que perdera.
Ou, talvez, imaginasse, sim. Seus olhos ainda revelavam preocupao, cuidado. Essas emoes fluam naturalmente de Faith como gotas de chuva escorrendo pela vidraa.
? timo  ela disse simplesmente.  Isso significa que voc est um passo mais prximo.
? Mais prximo?
 Da recuperao. De retomar sua carreira, sua vida.
Mas, ele nunca retomaria sua vida. Nunca mais. Nunca sonhara com isso. Tampouco queria.
 Vamos.  Ele estendeu-lhe a mo.  Sei que est vida para comear a sesso de tortura, depois do tanto que j discuti com voc hoje. Vamos. Faa-me sofrer, Faith. 
Os olhos dela estavam perigosamente claros quando ela pegou nas mos dele. Ele a provocara de propsito, s para ver seus olhos faiscarem. Qualquer coisa era melhor do que um olhar preocupado, aborrecido. O olhar que realmente torturava-o por faz-lo imaginar como seria a vida com uma mulher como Faith. E, tudo o que no deveria era permitir-se aquele tipo de pensamento.
	 tortura que voc quer, Murphy?  ela perguntou, pegando as mos deles nas suas.  Voc quer tomar iniciativas sem antes consultar sua terapeuta? Pois bem.
Mostre-me seus progressos. Hoje, voc vai suar e contorcer-se. Voc vai mostrar-me o que realmente pode fazer com suas mos, doutor. Quero rever um pouco do
homem que fazia mgicas na sala de cirurgia.
Ela sorria. No havia rancor na voz dela. Porque ela queria realmente que ele voltasse a operar. Nathan sabia. Porque ela acreditava na habilidade dele.
E, no pretendia decepcion-la. Nathan empenhou-se. Trabalhou at suas mos comearem a tremer. Faith percebeu.
	Hora do descanso. Depois, voc vai me mostrar o que tem feito em casa. Voltarei num minuto.
Ela ia dar uma olhada no filho. Ele sabia. Imaginava que o menino estivesse dormindo, uma vez que a casa estava silenciosa.
Sozinho, ele andou pela sala. No queria invadir a privacidade dela, mas queria saber como era a verdadeira Faith Reynolds. Conhecia a fisioterapeuta, perigosamente eficiente.
Mesmo assim, sondou. Muitas flores pela casa. Mveis de vime branco. Nenhum brinquedo  vista. Nem indcio do filho, exceto pelas fotos penduradas na parede. Cabelos pretos, olhos castanhos escuros, um sorriso largo, radiante.
Nathan virou-se rapidamente, dando de cara com Faith. Uma Faith preocupada, cautelosa. No queria que ela se preocupasse com ele.
	Criana bonita  disse, forando um sorriso.  No se parece com voc.
? No.  Ela relaxou um pouco.
De repente, Nathan compreendeu que ela recolhera todos os brinquedos do filho por causa dele, pelo que ele dissera logo no primeiro dia. Por causa de Amy.
	No  ela repetiu.  Charles no  nada parecido comigo. E idntico a Jim... fisicamente, pelo menos.
Nathan olhou de novo para a foto, tentando visualizar o homem que fora casado com Faith.
? Seu ex-marido mora por aqui? Ou voc  viva?
	No, no sou viva. E Jim no mora por aqui. Na verdade, nem sei onde ele mora.
Provavelmente, era uma situao comum. Mesmo assim, Nathan surpreendeu-se.
 Ele no v o filho?
Ela soltou sonoramente a respirao, curvando os lbios num sorriso cnico.
 No, desde que foi embora. Logo depois do nascimento de Charles.
Nathan franziu as sobrancelhas. Comeava a sentir rancor pelo homem que abandonara aquela mulher com um filho pequeno para criar. Mas Faith ergueu a mo, silenciando sua crtica.
	No se preocupe, Nathan. J no sinto revolta, nem raiva. Ou pelo menos, na maior parte do tempo. Jim no era um mau. Era apenas fraco, no sabia o que queria. Nem eu sabia o que ele queria.  Ela se apoiou na parede e cruzou os braos.  No compreendi que ele no queria uma esposa, um filho, que ele precisava de mim  momentaneamente, e no para sempre. Mas, isso foi h muito tempo. J me recuperei. E, afinal, ele me deixou Charles. Bem, j falei muito a meu respeito. Agora, vamos ao trabalho.
Sentaram-se em silncio, recomeando os exerccios. Nathan no se conformava com o que acabara de ouvir. O marido no sabia o que queria e, por isso, abandonara a mulher, o filho, no acompanhara o crescimento do menino. Como um homem podia ser to cego, insensvel?
Nathan mordeu o lbio. A bem da verdade, ele no poderia julgar o comportamento de Jim. Ele prprio no fizera a mesma coisa? Quantas vezes se ausentara, por conta do trabalho, enquanto a esposa e a filha precisavam dele? Quem era ele para julgar? Balanou a cabea. Seria melhor no pensar mais e concentrar-se no trabalho.
Flexionou os dedos, cerrou os punhos, sentindo a fora que no existia algumas semanas atrs. Um som abafado vindo de outro quarto interrompeu a concentrao. Faith pediu licena e saiu da sala. Ele podia ouvir o menino choramingando e a voz de Faith acalmando, agradando.
Instantes depois, ela saiu do quarto, fechando a porta. Sentando-se, ela retomou o trabalho.
O silncio durou apenas alguns minutos.
Ento, Nathan ouviu o som fraco, abafado de um piano de brinquedo. A voz fina e frgil de um garoto cantando versos inventados.
"Estou cansado de estar doente, mas logo ficarei melhor, sim, logo ficarei melhor. Minha me disse que vou sarar logo, logo" A voz do menino soava lamuriante, desafinada.
Nathan olhou para Faith. Os olhos dela estavam arregalados, a expresso desolada, num pedido mudo de desculpa.
A cano foi interrompida por um acesso de tosse. Depois, Charles prosseguiu.
"E, quando sarar, vou poder sair, sair, sair. A vou brincar no parque." As batidas das teclas do piano continuavam num ritmo imaginrio. "No hoje, mas, logo, logo."
Obviamente, a cano no tinha o menor mrito musical, mas, Nathan quase podia visualizar o menino, sentando diante de um piano de brinquedo, alheio ao mundo que o rodeava, colocando para fora as palavras que lhe vinham  mente.
Foi essa espontaneidade infantil que magoou Nathan, que levou lgrimas aos olhos dele. Um dia, ele tivera uma criana em casa, uma criana que cantava canes improvisadas, como aquele garoto. Uma criana a quem daria a prpria vida para ouvi-la de novo.
Erguendo a cabea, viu a expresso de choque de Faith. Levantando-se num salto, ela correu em direo ao quarto. Sabia o que ela ia fazer. Acabar com a brincadeira de Charles. Pedir ao filho para ficar em silncio. Para proteger o paciente, um homem crescido. Um homem que, uma vez, silenciara a cano de uma menina.
	Faith, pare.  Estendeu-lhe a mo, mesmo estando ela de costas. O tom de sua voz foi alto, mais alto do que pretendera.
Lentamente, ela se voltou. Uma pergunta bailava em seus olhos.
? Sinto muito, Nathan. No demoro. Vou apenas...
	Sei muito bem o que voc vai fazer. Mas, no faa nada. Volte aqui. Deixe-o sozinho. No me importo. Ele no est me incomodando.
Era mentira, uma tremenda mentira. S Deus sabia como ele se magoava com cada palavra, cada som, daquela msica improvisada. Mas isso no importava. Sofreria ainda mais depois que silenciasse o menino. No, ele no iria calar a voz de uma criana. No magoaria uma criana de novo. No, se pudesse evitar.
Ficou muito claro que as palavras dele fizeram grande diferena. O rosto tenso de Faith relaxou e ela sorriu. A situao no era fcil para ela tambm. E, agora que sabia que a presena do menino no causaria constrangimento a Nathan, portava-se de maneira mais natural. Voltara a ser ela mesma. O peso se dissipara. Somente a tosse intermitente de Charles fazia com que ela contrasse os maxilares. Por duas vezes, foi v-lo.
Quando Faith deu a sesso por terminada, Nathan levantou-se para ir embora.
	Voltarei amanh, Faith.  Ele no sabia de onde as palavras vinham, nem por qu. Aquele no era o tipo de dia que pretendia enfrentar de novo.  Voc no deve ficar longe de seu filho enquanto ele estiver doente. A gripe costuma durar alguns dias.  assim mesmo.  Perguntava-se como seria criar uma criana sozinha. Deveria ser difcil. Muito difcil.
As palavras dele surpreenderam-na. Logo, porm, um sorriso exultante iluminou o rosto dela.
	Sim, gripe  assim mesmo  admitiu ela.  Voc no deveria ter entrado aqui. E, se pegar a gripe? Vou me sentir culpada. Por que no pensei nisso antes? Voc no deveria estar aqui. Provavelmente, j fui infectada pelo vrus e voc esteve sentado na minha frente por mais de uma hora. Talvez, se ficar em casa amanh...
L estava a terapeuta preocupada e eficiente, colocando as necessidades dele acima de seu interesse. Se deixasse por conta dela, no dia seguinte, Penny Damen ou outra fisioterapeuta, estaria batendo  sua porta.
	Vrus?  ele perguntou com um sorriso de zombaria. Claro, era uma desculpa s para afast-lo dali.
	Sim. Da gripe.  Cruzando os braos, olhou-o com aquela expresso solene que tanto o encantava.
? E voc no quer que eu corra o risco, certo?
? No. Definitivamente, no.
	Tudo bem.  Dando um passo  frente, Nathan segurou-a pelos cotovelos e a beijou. Um beijo rpido, vigoroso. Depois, afastou-se lentamente. Aquela mulher o deixava louco, levava-o a fazer coisas que no devia, que prometera jamais fazer.
	Vrus.  Ele sorriu.  Agora, tambm estou com eles. Portanto, no perca seu tempo tentando proibir minha vinda ou providenciando outra terapeuta, Faith. Voc e eu at o final, ou ningum.
Deixou-a ali parada, olhos arregalados, chocada. Com os dedos nos lbios, como se no acreditasse que ele ousara beij-la de novo. Ora, nem mesmo ele acreditava!
Mas, beijara. Ainda sentia o gosto dela em sua boca, o calor do corpo dela contra o seu.
Fora estpido por toc-la novamente, tolo ao dizer que voltaria no dia seguinte. Uma nica noite j fora penosa demais. Se tivesse um pouco de bom senso, ligaria para ela, informando que queria outra fisioterapeuta, apesar de todos seus protestos. Tinha que fazer isso. Ele sabia que tinha.
Especialmente quando, na noite escura, nas ruas vazias, a lembrana da voz de uma criana encheu seus ouvidos. Os olhos de Faith observando-o. O menino cantando. No era certo pensar em tudo isso. Perigoso. Assustador. Errado.
 medida que se aproximava de casa, o lugar onde por tanto tempo se escondia, a voz o acompanhava. Ouvia a voz de Charles, pequena, suave, insistente.
Se pretendia voltar  casa de Faith, teria que aprender a conviver com aquela voz, com o menino do quarto ao lado. Aquela era a realidade. As crianas nunca ficam quietas e silenciosas. Precisavam brincar, correr, queimar energias. Nathan sabia. Ele tivera sua Amy.
A perspectiva de voltar e encarar aquela criana, assustava-o. Mas, havia algo mais. Alvio. Uma pontada de alvio por saber que, em algum lugar, havia uma criana que alegrava o corao de uma mulher. Em algum lugar, ainda havia uma criana que cantava.
No dia seguinte, teria que enfrentar o menino, encarar Faith e seu filho. No podia continuar fingindo que Charles no existia.
Nathan estacionou no ptio de sua casa, desligou o motor e desceu do carro. Bateu a palma da mo na capota. O peso da realidade caiu sobre ele.
Lembranas. Faith sussurrando ao filho com amor. Faith perplexa quando ele a beijara. Faith. Charles. Juntos. E ele, bem no meio de tudo. Observando. Experimentando sentimentos que julgava esquecidos.
Decididamente, ele lhe mandaria flores, depois de tudo terminado. Celebraria, feliz, quando tudo estivesse terminado. S assim, pararia de sentir tudo aquilo novamente.



CAPITULO V

No dia seguinte, Faith reconheceu que Nathan enfrentava a situao com garra. Percebera que ele lutara para no cerrar os punhos nas vezes em que Charles a chamou.
Ele no dissera uma nica palavra. Apenas ficara sentado, exercitando os dedos. Faith sabia que, na verdade, era mais uma reao s queixas de Charles, do que propriamente exerccios.
	Desculpe  pediu ela, mais uma vez, depois de ver Charles.  Pensei que hoje ele estaria melhor. Mas, essa tosse... Ele nunca teve tosse antes.
	Relaxe, Faith  Nathan aconselhou, percebendo o desconforto dela.
	Eu no deveria ter concordado com sua vinda. Tanta tenso s o prejudicar.
A risada cnica de Nathan espantou-a.
	Moa, estou tenso desde o momento em que voc colocou os ps em minha casa. E, voc tambm. Voc abre a boca, e l estou eu contestando. Eu discuto e voc me enfrenta. Quando nos tocamos...
Ela levantou a mo, interrompendo-o.
? No diga nada. J expliquei que foi gratido.
? Gratido  repetiu ele.  Tambm no quero mais discutir esse assunto. S quero que saiba que estou enxergando as coisas sob uma tica diferente. Mas, isso no faz diferena. Esse menino que est no quarto...  Baixou o tom de voz.  Este  o territrio dele, a casa dele. Eu sou o intruso e garanto que estou lidando muito bem com a situao.
Charles choramingou de novo. Faith fitou Nathan nos olhos. Ele prendeu a respirao e estremeceu levemente.
 Mame?  Charles chamou.
Mordendo o lbio, ela lanou um olhar de desculpa para Nathan.
	V v-lo, Faith.  seu filho e est doente. Voc no tem do que desculpar-se. Ele precisa da me por perto e das coisas que ele gosta... como o urso de pelcia, por exemplo.
Faith sorriu. Pensara que conseguira esconder o ursinho antes que Nathan o notasse.
	Tudo bem. Vou parar de sentir-me uma me culpada.
Nathan acariciou-lhe a palma da mo.
	Agora v. Aposto como a febre deixou-o com sede. V sossegada. Estarei aqui.
Vagarosamente, ela puxou a mo. Caminhou alguns passos, depois se voltou. Ele a observava. Os olhares se encontraram.
	Voc deve ter sido um pai maravilhoso, Nathan Murphy  ela murmurou.
O brilho que ela notara nos olhos verdes, dissipou-se. As plpebras se fecharam, os maxilares se contraram.
	Eu fui o pior pai do mundo.  A voz soou fria, amarga.  Um pssimo marido, tambm. Nunca estava com Joanna e Amy. Alm disso, era eu quem estava dirigindo quando aquele carro nos fechou. Se eu estivesse atento, se meu pensamento estivesse voltado para a segurana de minha esposa e de minha filha, teria evitado o acidente. Deveria ter jogado o carro para o acostamento. Ou, pelo menos, girado o volante e desviado. No fosse minha negligncia, elas ainda estariam vivas. No pense que sou um heri. No pense nada de bom a meu respeito. Agora, v ver seu filho. Leve o urso.
Nathan observou Faith saindo da sala. Como no dia anterior, ele a ouviu murmurar palavras de conforto para o filho. Seguiu-a com o olhar, quanto ela foi para a cozinha. Ouviu o rudo da porta da geladeira e, depois de pratos. E, entre os rudos, ouviu a voz ansiosa de Charles.
 Mame?	
Mais barulho, panelas caindo. O toque do telefone. Um abafado "Oh, no", depois o suspiro longo e sonoro de Faith. Ela no ouvira o chamado de Charles.
 Me, onde voc est?
Nathan olhou para a cozinha. Ele poderia at cham-la. Faith agradeceria se a chamasse. Mas, bastou uma espiada pela porta da cozinha para mudar de idia. Ela estava de costas, falando ao telefone, recolhendo os objetos que deixara cair. Faith precisava de alguns minutos de folga.
Ele lhe daria a folga. Talvez. Desde que tivesse foras para entrar no quarto. Desde que tivesse a coragem de ver o que o menino queria. No custaria nada. Na verdade, tratava-se de uma coisa muito fcil de fazer. Ento, por que estava tremendo? Por que seu corao batia como um tambor?
Nathan deu um passo na direo da porta. Depois, outro. Lentamente. O quarto parecia distante, distante demais, e, ao mesmo tempo, muito prximo.
Outro passo. Mais um pouco e estaria l.
A cama gemeu. Se no detivesse o menino, ele sairia correndo pela casa, ps descalos, em busca de ajuda, quando a ajuda estava do outro lado da porta, tremendo, assustada.
Respirando fundo, Nathan endireitou os ombros, ergueu o queixo e forou-se a entrar no quarto. Forou-se a olhar para a cama.
Seus olhos depararam-se com um par de olhos castanhos. Desconfiados.
O menino tossiu e limpou a boca com a manga do pijama.
 Voc  o mdico? Aquele importante?
Nathan sorriu de leve.
	No sei quem  importante, mas, sou mdico, sim. Parece que voc est doente.
Charles avaliou Nathan com ar cauteloso.
	Peguei gripe. Chamei minha me porque os lenis esto revirados e no consigo encontrar meu urso. Pode ir embora. A gripe  contagiosa, e minha me disse que voc tem medo de meninos como eu.
Assim dizendo, Charles voltou a ateno para um brinquedo que tinha nas mos, como se a presena de Nathan fosse absolutamente dispensvel. E, se Nathan usasse um pouco de seu bom senso, teria aproveitado a oportunidade para sair daquele quarto.
No entanto, ele cruzou os braos, disposto a esclarecer as palavras do menino.
  Ento, sua me disse que tenho medo de voc?
Ouviu os passos de Faith que vinha da cozinha.
	Nathan? Charles?  Faith chamou num tom preocupado.
Logo, ela entraria no quarto. Charles deitou-se, ajeitando os lenis da melhor maneira. Nathan olhou ao redor. Embora bem decorado e alegre, o quarto era muito pequeno. Parado na porta de entrada, Nathan sentia-se ocupando todo o espao fsico. E Faith praticamente obrigava o filho a permanecer sozinho naquele quarto minsculo apenas para no aborrecer o "doutor".
Nathan olhou de novo para o menino deitado na cama estreita. Um espao to pequeno para se ficar por tanto tempo. Quando Faith voltasse para a sala de estar, para os exerccios, Charles ficaria sozinho, doente, solitrio...
Ele estremeceu com esse pensamento. No deveria ter ido  casa de Faith. Ela estava certa por querer manter os dois  distncia. Fitando os olhos ansiosos do garoto, para a miniatura de mo segurando a barra do lenol, Nathan compreendeu que no desejava ficar perto dele. Seu corao se contraa de dor, tentando afastar as lembranas de outras mozinhas que haviam enlaado seu pescoo. Com afagos e risos de alegria e beijos doces com gosto de framboesa.
O menino mordeu o lbio. Um gesto infantil que despertou mais lembranas dolorosas. Um acesso de tosse sacudiu o corpo frgil.
Nesse momento, Faith entrou no quarto, aproximando-se da cama, friccionou as costas do menino em movimentos circulares. Depois que a tosse passou, ela o abraou.
 Tudo bem, Charles? Melhorou?
Charles abraou-a pela cintura.
S ento, Faith viu Nathan.
	Nathan? Voc est... Eu no o vi na sala. Pensei que tivesse ido embora. Eu...
Ele balanou a cabea.
	No pea desculpas. Voc no ouviu quando ele chamou. Imaginei que poderia ajudar.
	Obrigada.  Ela baixou o olhar, embaraada, sentindo-se culpada e irresponsvel.
Seguiu-se um breve silncio. Depois, ela levantou a cabea e os olhares se encontraram. Nathan olhou fundo naqueles olhos azuis e o quarto pareceu tornar-se ainda menor. Respirou com dificuldade, como se o ar faltasse naquele espao pequeno.
Nathan sentiu a mudana quando Charles olhou para ele, depois para a me. Puxando a manga da blusa de Faith, o menino apontou para os lenis revoltos.
 Perdi meu urso.
Faith afagou os cabelos do filho e largando-o por alguns instantes, arrumou a cama. Depois, entregando o urso que cara no cho, tornou a abraar Charles.
	Desculpe. Hoje estou muito desorganizada. S vou acomodar Charles e voltaremos para nossa sesso.
Passou a mo pelos cabelos, afastando um cacho que caa-lhe na testa. Nathan reparou na mancha de suco de frutas que espirrara na blusa dela, nos lbios comprimidos, no corpo inteiro tenso, contrado. Notou tambm os olhos de Charles se abrirem preocupados ante a perspectiva de ficar sozinho de novo.
Com um tremor interno de resignao, e fechando mentalmente os olhos e os ouvidos para o que iria propor, Nathan pegou o copo de suco que ela deixara sobre o criado-mudo. Encarou Charles, que o olhava com brilho rebelde nos olhos.
	No tenho medo da gripe mesmo sendo contagiosa.  Entregou o copo ao menino.  Por que no o levamos para a sala? Assim, voc ficar perto da mame.
O brilho de esperana no olhar de Charles quase o nocauteou. O que ele propusera era algo to simples. Simples e estpido.
 A mame disse que tenho que ficar no quarto  Charles argumentou.  Crianas doentes devem dormir bastante.
	J que voc tem que dormir bastante, ento, trate de fechar os olhos assim que o deitarmos no sof. Ordens do mdico. Pegue seu urso.
Sem esperar pela reao de Faith, ele pegou o menino, lenis, travesseiro, nos braos. Charles pesava pouco mais do que uma pena. Portanto, no havia razo para um homem do tamanho de Nathan sentir os joelhos trmulos. Nem para ter a impresso que a sala ficava a dezenas de quilmetros distante do quarto.
Respirando fundo, girou nos calcanhares e iniciou a caminhada at a sala. Faith seguiu-o. Gentil e lentamente, colocou o menino sobre as almofadas e afastou-se para que Faith o acomodasse.
Faith ajeitou os lenis, o travesseiro, depois beijou a testa do filho. Um beijo terno, suave, amoroso. Porm, quando se voltou para Nathan, a ternura desaparecera, dando lugar  exasperao.
	Podemos conversar por um instante, antes de recomearmos nosso trabalho? Na cozinha, por favor.
Ela estava muito prxima. Perigosamente prxima. Nathan inalou o perfume de limo, inebriando-se por breves segundos, mesmo reconhecendo o brilho beligerante nos olhos dela.
Encolhendo os ombros, ele a seguiu em silncio at a cozinha branca e vermelha. Assim que se viu a salvo dos ouvidos de Charles, ela investiu:
	Creio que conversamos a respeito do controle, logo que comeamos com nossas sesses, Nathan. Eu estava preocupada com a possibilidade de voc ser um pouco arrogante. Mas, at que no, pelo menos, no muito. At agora. De repente, voc mudou, Murphy. Quero lembrar-lhe que Charles  meu filho, minha responsabilidade, e que no momento, est doente. Ele precisa ficar na cama, precisa descansar...
	Ele precisa da me ao lado dele  Nathan corrigiu-a, aproximando-se mais, tanto, que sentiu a tenso irradiando dela. Tanto, que poderia toc-la.  Alm do mais, Faith, se voc pensa que ele descansou um segundo desde que cheguei aqui, enganou-se redondamente. Garanto que ele descansar muito mais agora que pode v-la e comprovar que no represento ameaa para ele.
Faith recuou, fugindo do perigo.
	Charles sabe que voc no  uma ameaa. J disse isso a ele.
	Tudo bem. Mas, talvez, ele tenha que ver com os prprios olhos. Talvez voc interprete mal minhas aes. Quem sabe no seja por puro egosmo que eu queira o menino perto de ns. Assim, voc no precisa ficar correndo de l para c, desdobrando-se para atender os dois. E, conseqentemente, o tratamento terminar mais rpido. Voc sabe o quanto sonho com isso. Afinal, prometi enviar-lhe rosas, lembra-se? Para celebrar o final. Ou voc no gosta de rosas?
	Adoro rosas, Nathan. Mal posso esperar pela sua recuperao, s para celebrarmos com flores. Mas, e suas convices? Logo no primeiro dia, voc foi categrico. Nada de crianas. Dividir a mesma sala com Charles  muito difcil, no?
Nathan refletiu por alguns segundos. Depois, encolheu os ombros.
	Sou um cirurgio, Faith. Conviver com crianas faz parte da vida. Ser melhor acostumar-me logo com isso.
Faith suspirou, desviou o olhar e aps um breve silncio, como se considerasse a inutilidade de discutir com ele, ela encolheu os ombros.
	Tudo bem, Nathan. S posso agradecer-lhe, sejam quais forem suas razes. Estes ltimos dias no tm sido fcil para Charles. Nem para mim. Detesto no poder ajud-lo. Obrigada. Agora, vamos voltar s suas mos.  Ela deu um passo em direo  porta.
	Ok, mas ainda no. Tenho uma pergunta.  Ele tocou num cacho de cabelos, impedindo-a de sair da cozinha.
Virando levemente a cabea, ela olhou-o por sobre o ombro. Parou, esperando com um brilho de desconfiana nos olhos.
? Ento, pergunte.
	Seu filho... Charles... Ele ter que ficar em casa por mais alguns dias?
Ela concordou com um gesto de cabea.
	Estes dias que voc tem faltado... isto , o hospital no a punir de alguma forma?
	At agora, ningum se manifestou. Porm, preciso voltar ao trabalho. Charles ainda est doente, mas, j apresentou melhoras. No posso ficar tanto tempo ausente. Amanh, eu o levarei ao centro infantil do hospital. Enquanto ele no se recuperar totalmente, no poderei deix-lo com a bab.
? Centro infantil? Ele j esteve l antes?
	J. Uma vez, no ano passado e apenas por um dia.  Pelo tom de voz, Faith dava a entender que no lhe agradava muito deixar o filho no centro infantil. Depois, reassumindo a postura profissional:  Os ponteiros do relgio esto correndo e voc est perdendo tempo. Voc quer ou no enviar-me aquelas rosas? Voc no quer ver-me bem longe de seus calcanhares, Murphy?
Cus, ele queria, sim! Ele a queria longe de seus calcanhares, de sua vida, de seus pensamentos, de seus sonhos. Queria um mundo onde nunca a tivesse conhecido. Um mundo onde o perfume de limo no o faria lembrar-se dos lbios de uma mulher movendo-se sob os seus.
	Voc ter suas rosas, Faith. E rapidamente, se depender de mim.
Quando voltaram para a sala, Charles lanou um olhar longo e solene para Faith. Depois, sorriu, virou-se de lado, adormecendo em seguida.
Sentaram-se e, em silncio, recomearam os exerccios. Faith percebeu que Nathan observava a sala, olhando ao redor, mas, evitando deter-se em Charles.
Ele afirmara que no fora um bom pai, que era culpado pela morte da filha. No entanto, tratara Charles com muito carinho, preocupando-se em lev-lo para o sof, mesmo sabendo que o menino poderia perfeitamente caminhar.
Por qu? Ele estaria pagando suas penas? Resgatando culpas do passado? Faith no sabia e, seguramente, Nathan nada explicaria. Ele recuara depois de colocar Charles no sof. Fora gentil, mas sentira-se desconfortvel. No errara ao dizer que Nathan tinha medo de crianas.
	Voc est to calada, Faith. Est preocupada com... com ele?  Nathan evitava mencionar o nome do menino.
Faith forou um sorriso.
	Claro que estou preocupada, Nathan. Fico preocupada o tempo todo. Mas, Charles e eu j vivemos momentos iguais a este antes. E, viveremos outros no
futuro. Portanto, no se preocupe conosco. E, por favor, pare de olhar-me assim.
	Assim como?  Nathan fitou-a com tanta intensidade que Faith desviou o olhar para fugir do perigoso magnetismo que emanava daqueles olhos verdes.
	Como... como se eu tivesse seis anos de idade. As palavras ordens do mdico no me intimidam, Nathan.
Ele no conteve o riso.
	Pode ser. Porm, sei que existem outras palavras que a incomodam e muito. Por exemplo. Centro infantil. Voc no gosta de deixar seu filho l, no  mesmo?
Lentamente, ela soltou a respirao. Apoiou os cotovelos na mesa e passou os dedos pelos cabelos.
	No  um lugar ruim, no. Tem brinquedos e jogos. Os funcionrios so amigos e competentes.
Sim, era um lugar agradvel, mas no deixava de ser uma ala de hospital. Charles assustara-se. E chorara, chamando por ela. Seus soluos perseguiram-na durante o dia inteiro.
	J estive l algumas vezes  Nathan afirmou.  Eles se esforam muito para proporcionarem conforto s crianas. E uma soluo prtica para uma criana doente.
	 exatamente o que venho repetindo para mim mesma. E, nem ser por muito tempo, felizmente. Menos de uma semana. Segunda-feira, Charles j estar em condies de ir para a pr-escola. E, no perodo da tarde, ele ficar com Mandy. Ele se sente seguro com ela.
Esticando o brao, Nathan tocou-lhe o queixo com a ponta do dedo.
	Voc  uma boa me, Faith. No precisa sentir-se culpada. No h mais nada que se possa fazer.
Quando a sesso terminou e Nathan levantou-se para sair, viu-se forado a passar ao lado do sof. Olhou para a criana adormecida.
O urso de pelcia estava entre as almofadas, longe do alcance de Charles. Nathan sabia que o menino procuraria pelo bicho quando acordasse.
Sem hesitar, pegou o urso, depositando-o ao lado de Charles. Sentindo a pelcia roando em seus dedos, o menino entreabriu os olhos.
? J vai?  ele perguntou com voz embargada.
	J  Nathan assentiu.  Agora, durma. Descanse bastante para poder tomar conta da mame. Ok?
? Ok, doutor. At amanh.
? At amanh... Charles.
Nathan saiu e antes de entrar no carro olhou para trs. Faith estava encostada na soleira da porta, toda olhos, cabelos cor de mel, suavidade. Ela era uma mulher incrivelmente forte, que no permitia que a vida a abatesse, ou que algo a detivesse. Ento, por que a aparncia de um flor bela e frgil arrancada do galho? Por que a impresso de que precisava de algum para proteg-la? E por que diabos ele se pegava querendo correr para ela, tom-la em seus braos, prometendo proteg-la com a prpria vida. Prometendo ser seu eterno guardio, mesmo sabendo que ele no era o homem indicado para esse papel?
Faith fechou a porta. A luz foi apagada. Mas Nathan continuou ali parado, olhando para a casa ainda por muito tempo antes de entrar no carro.
Era noite de lua cheia. Uma noite iluminada, brilhante. Perfeita para um passeio.
Entretanto, Nathan s conseguia visualizar a imagem do menino descansando calmamente entre lenis estampados com dinossauros. Ainda ouvia a voz preocupada de Faith.
Ela estava sozinha. Ela era sozinha. Faith no tinha ningum para ajud-la a cuidar do filho doente. Ningum com quem compartilhar as preocupaes. Nem marido.
Nathan estremeceu. No era fcil admitir, mas, ele fora assim com Joanna. Um marido ausente. Um homem envolvido demais com o trabalho, ocupado demais para parar e oferecer ajuda.
Respirou fundo, resignado. No podia fazer mais nada com relao  Joanna. Infelizmente, no havia como mudar o passado.
Tampouco poderia ajudar Faith. No podia. Era impossvel, inimaginvel.
Naquele momento, ela s precisava de uma bab de sua absoluta confiana. E, essa era uma questo que somente ela poderia resolver. Ningum poderia decidir por ela. Ningum. Muito menos ele, o homem que contestava, que discutia, que a beijara, aproveitando-se de um instante de vulnerabilidade.
Enquanto dirigia, Nathan no podia evitar de lembrar-se de outra criana, de outra me ansiosa. Um dia, ele e Joanna haviam levado Amy para a sala de emergncia. Amy agarrara-se ao pescoo dele, repetindo desesperadamente "Tenho medo, papai. Tenho medo", enquanto as lgrimas escorriam pelo rosto plido.
Claro, no era a mesma coisa. Charles iria para um bem equipado centro infantil e no para uma sala de emergncia. No, no era a mesma coisa. Exceto pelo fato de Charles ser uma criana doente, mais suscetvel ao medo do que o normal.
Praguejando em voz baixa, Nathan ligou o motor do carro. Manobrou, retomando o caminho de volta.
A casa de Faith estava escura quando ele chegou l. Aproximou-se da janela que sabia ser do quarto dela. Bateu de leve, chamando-a em voz baixa para no assust-la, nem acordar o menino.
A luz foi acesa. Faith abriu a vidraa. Nathan reparou no robe branco que a cobria do pescoo at aos joelhos. Era o tipo de roupa supostamente recatada, mas que fazia um homem querer arranc-la s para ver o que se escondia sob o tecido.
	Nathan?  ela murmurou. Os cabelos soltos caam-lhe pelos ombros.  O que aconteceu? Entre  Fez meno de afastar-se da janela para abrir-lhe a porta.
	No.  Ele segurou-lhe a mo, impedindo-a de afastar-se.  Faith, eu tinha que voltar. Estive pensando. Charles... Voc no precisa deix-lo no centro infantil. No h necessidade, desde que eu no fao nada o dia inteiro. Olhe, se voc concordar, amanh poderei vir para ficar com ele. J conversei com Hannah e ela no se importa de passar algumas horas conosco. Assim, o menino no precisa sair de casa.
J completamente desperta, Faith fitava-o com olhos arregalados. Inclinando-se na janela, ela tocou-lhe as linhas do queixo com a ponta dos dedos. Com um sorriso dbil nos lbios, balanou lentamente a cabea.
? No permitirei que faa isso.
	No confia em mim? Logo imaginei. Por isso pedi para Hannah vir tambm. Ela j  av e tem prtica com crianas.
	No  por no confiar em voc, Nathan. Eu vi como o tratou com carinho.  por sua causa. Ficar com Charles... No  isso que voc quer. Realmente, no.
	Eu no mentiria para voc. No nego que a perspectiva me apavora. E difcil olhar para uma criana e no ver minha filha. No lembrar das minhas falhas. Sou um homem com remorsos, muitos remorsos, Faith. Sei que voc est preocupada por deixar seu filho num hospital. Se eu posso fazer alguma coisa para ajud-la nesse sentindo e no o fizer, terei que acrescentar mais remorsos  minha lista j to longa. Acho que no suportarei o peso de mais culpas.  Forou um sorriso.  Como voc mesma disse, ser por pouco tempo. Hannah estar por perto e Charles descansar bastante. Eu o tratarei bem, prometo.
 Eu sei  Faith murmurou.  Confio em voc.
Nathan enlaou-a pela cintura.
	Nada conseguir apagar o passado. Jamais me perdoarei. Mas, se eu puder ajud-la... Bem, preciso fazer isso.
O sorriso de Faith transformou a noite. Inclinando-se mais, ela o beijou n os lbios.
	Obrigada, Nathan. Eu aceito. Provavelmente, no deveria, mas aceito.
Nathan fitou-a fundo nos olhos. Passou o dedo nos prprios lbios, ainda sentindo o calor do beijo de Faith.
? Gratido?  perguntou ele.
? Gratido.
? Ok. Voltarei amanh. Bem cedo.
Ele se afastou. Mas, s entrou no carro depois de certificar-se que Faith fechara a janela. Estava flutuando. Faith o beijara, tocara-o espontaneamente, pela primeira vez desde que pousara a mo no brao dele, logo na primeira sesso.
Apenas porque sentia-se grata.
Ainda podia senti-la em seus lbios. O calor, o perfume, o gosto dela. Nathan respirou fundo, tentando imaginar como seriam os prximos dias convivendo com Faith e com o filho dela. Talvez pudesse cuidar do garoto por alguns dias e ainda manter sua sanidade. Mas havia limites para a sobrevivncia de um homem.
Ao experimentar o beijo de Faith, Nathan descobriu que atingira seu limite.
J era tempo de colocar um ponto final nas sesses de fisioterapia. J era tempo de acabar com aquele clima entre Faith e ele.
Porm, antes, teria que enfrentar o dia seguinte.



CAPITULO VI

Com um dia cheio pela frente, Faith no podia dar-se ao luxo de passar a noite vagando pela casa.
Desde que Nathan aparecera em sua janela... no, desde que ela o olhara fundo nos olhos e vira a ternura e a preocupao neles refletidos, seu corao vinha batendo totalmente descompassado. No havia meio de conciliar o sono de novo.
J bebera um copo de leite quente com mel, j assistira televiso, j tentara ler, mas nada de o sono chegar.
 Faith, o que est acontecendo com voc?  resmungou.
Ela o beijara mesmo sabendo que essa era a ltima coisa que deveria acontecer. J no aprendera a lio vendo sua me sofrer com o corao despedaado? Ela mesma j no se casara, esperando pelo impossvel? Bem, pelo menos, com relao ao casamento, tinha uma desculpa. Jim dizia am-la, jurara ficar ao lado dela.
Esse no era o caso de Nathan. Ele no fazia segredo das feridas de sua alma. confessara que tinha remorsos. Esses remorsos atormentavam-no emocionalmente. S mesmo uma mulher ingnua, ou tola, se permitiria sentir alguma coisa por um homem com ele. Faith j cometera uma tolice. No queria repetir a dose.
Jim precisara dela momentaneamente, no para a eternidade. Nathan tambm precisava dela somente por algum tempo. Teria que lembrar-se disso. No admitiria mais beijos fortuitos.
Provavelmente, fora uma loucura aceitar o oferecimento dele para cuidar de Charles. Mas, como recusar e deixar Charles num hospital, entre estranhos? No suportaria ouvir o choro do filho, nem mesmo para proteger seu corao.
Em silncio, foi ao quarto de Charles. Olhou para o menino, que dormia tranqilamente. Sobre o criado-mudo, um pedao de papel. Era a lista de Charles. Com o papel na mo, saiu do quarto e foi para a sala iluminada. Leu os itens j escritos. Cabelos pretos e olhos castanhos. Mdico no. Sorrindo, pegou uma caneta e acrescentou a mais recente exigncia de Charles. No ter medo de monstros, nem de crianas.
Assim deveria ser o futuro pai de seu filho. O homem com quem ela passaria seus dias e noites. A perspectiva provocou-lhe um arrepio na espinha. A imagem de Nathan surgiu diante dela, fazendo-a lembrar-se do tremor que sentira quando ele a tocara, quando a beijara. Nathan era to alto, to forte, e quando ele a abraara, sentira-se protegida, envolvida pela vontade de aprofundar aquele abrao.
Entretanto, o homem da lista no era Nathan. No queria que fosse. Tampouco Charles. Seu filho deixara isso bem claro. Certamente, Charles a perdoaria se ela acrescentasse algumas palavras  lista, por sua conta. Porque, naquela noite, ela precisava de algo mais. Precisava sentir-se segura.
Pegando a caneta de novo, ela escreveu: Baixo. Parecia ridculo, hilrio, mas era algo que solidificava a imagem do homem. Baixo, cabelos pretos e olhos castanhos. Um homem que no tivesse medo de nada, que no fosse mdico. Decididamente, esse homem jamais poderia ser Nathan Murphy.
Uma sbita onda de alvio caiu sobre ela. Deixou o papel sobre a mesa, apagou a luz e deitou-se no sof.
As primeiras luzes da manh encontraram-na ainda acordada. Passara a noite tentando dormir, tentando visualizar um homem de estatura baixa, cabelos pretos, olhos castanhos, que a amasse, que amasse seu filho, que ficasse com eles para sempre. Queria encontrar esse homem, queria v-lo em seus sonhos.
Amanhecera e, no entanto, nem o sono, nem o sonho haviam chegado. E o nico homem que povoara seus pensamentos naquelas longas horas de insnia tinha olhos verdes, cabelos loiros e... era alto.
Nathan observava Hannah ajeitando a bolsa. O momento que tanto temia, havia chegado. Hannah preparara o almoo, lavara a loua e, agora, ia embora, deixando-o sozinho com o menino.
Hannah o ajudara a superar as primeiras horas, embaraosas e difceis. Seguindo as instrues de Faith, a governanta servira o caf da manh para Charles, ajudara-o a tomar banho e a vestir-se. Agora, porm, ia embora.
 Bem, Dr. Murphy, j vou. Se precisar de alguma coisa  s telefonar. Acredito que tudo correr bem. O garoto j almoou e acho que vai dormir ainda por um bom tempo. Quando ele acordar, procure distra-lo at a me chegar.
Era justamente esse detalhe que o preocupava. Distra-lo significava conversar, ouvir, ficar com ele... durante horas. Dessa vez, no poderia evit-lo. Oferecera ajuda  Faith, prometera cuidar bem do filho dela.
No queria decepcion-la. Entretanto, sua respirao tornava-se mais rpida e ofegante. Suas mos transpiravam e tremiam.
Da porta, Nathan acenou para Hannah. Depois, voltou para a sala de estar, onde Charles dormia no sof. Assim que entrou, o menino abriu os olhos e olhou-o com expresso cautelosa.
 Precisa de alguma coisa?  Nathan detestou o tom rspido de sua voz.
Charles negou com um gesto de cabea.
 Tem certeza?
De novo, o movimento de cabea, afirmativo dessa vez.
Ele no queria nada... Ou melhor, Nathan juraria que ele queria livrar-se daquele estranho.
Charles estava bem equipado. Rodeado por livros, brinquedos, at mesmo o indefectvel urso de pelcia, parecia ter mesmo tudo do que precisava.
Mas, a sala estava escura. Aproximando-se da janela, Nathan comeou a abrir as cortinas.
? No abra!  Charles gritou com voz estridente.
	Voc precisa de luz  Nathan explicou.  No  bom ficar no escuro por tanto tempo.  Como eu fiquei, at Faith entrar em minha vida, ele lembrou.  O dia est ensolarado. O sol faz bem para a sade.
	 mais uma ordem do mdico?  Charles indagou num tom ansioso.
	Com certeza. Por que voc no quer as cortinas abertas?
Charles franziu as sobrancelhas e Nathan achou que ele no iria responder. Depois, erguendo o queixo, disse:
	De repente, os monstros podem entrar. Voc sabe, se eles perceberem que estamos aqui. Se as cortinas estiverem fechadas...
Os lbios dele tremeram, a voz fraquejou. Nathan decidiu no contrari-lo.
? Entendo.  Sentou-se mais perto de Charles.  Os monstros o incomodaram hoje?
? No.  Charles brincava com um caminho amarelo.  Porque Hannah estava aqui comigo. Mas, voc... J lhe contei que a mame disse...
? Eu sei o que sua me disse. Que eu tenho medo de crianas.
	Voc tem mesmo? Mame sempre fala a verdade.
Nathan descobriu que no conseguia sustentar o olhar de Charles. Desviando o olhar, deteve-se nos desenhos do carpete. O amor de Charles pela me era to grande que demonstrava o quanto uma criana poderia ser inocente e confiante. Confiante demais, Nathan pensou. Alguns pais no correspondiam a tanta confiana quando eram requisitados. Nathan sabia disso muito bem.
? Realmente, sua me fala sempre a verdade. Talvez, ela no tenha se expressado bem. Acontece que... bem, eu no convivo com crianas h muito tempo e por isso no estou mais acostumado a falar com elas.
? Voc est falando comigo.  Charles deixou o caminho de lado e encarou Nathan.
? Tem razo. Estou. Isso significa que no devo ter medo de voc, no ? Assim como voc no deve ter medo dos monstros. Eu estou aqui e voc no tem com que se preocupar. Vou proteg-lo, Charles.
Era uma promessa mais para ele mesmo do que propriamente para o garoto. A admirao estampada no rosto do menino quase fez com que Nathan se afastasse dele. Obrigou-se a continuar sentado.
 Ento, voc no tem medo de monstros?  Charles perguntou, admirado.
Nathan pensou em tudo que temia. Crianas, uma mulher como Faith. Ela o fazia querer coisas que no se permitia mais. Como amor, lar, famlia. Sim, decididamente, ele tinha seus prprios monstros. Ele conhecia o significado de medo.
	No, no tenho medo de monstros  mentiu, sabendo que o menino precisava da segurana de suas palavras.  Mas, uma vez, conheci uma menina que tinha muito medo deles.
 O que aconteceu? Os monstros pegaram ela?
Oh, sim. Os monstros a pegaram, sim.
	No, os monstros no a pegaram  Nathan garantiu.  O pai dela espantou-os de casa.
	 mesmo? Como? Ele lutou com espada? Ou matou eles com tiros de revlver?  Charles interessara-se pela histria. Seus dedos torciam a barra do lenol.
Nathan negou, movimentando lentamente a cabea.
	No, nada de violncia. O pai dela foi  loja e comprou uma tinta antimonstro. Ele pintou as paredes do quarto da menina e o cheiro da tinta era to ruim que os monstros fugiram para sempre.
Os olhos de Charles brilhavam, empolgados com a novidade. Ele quis falar alguma coisa, mas, um acesso de tosse impediu-o. Nathan foi buscar um copo com gua. Passando o brao pelos ombros do menino, levou o copo ao lbios dele. Charles bebeu a gua, mas a tosse persistia. Nathan sentia os msculos do corpinho dele sob a mo. Quando percebeu o que estava fazendo, retesou-se.
Aquele gesto foi suficiente para despertar-lhe lembranas de um tempo em que Amy esteve doente. Ele e Joanna haviam se revezado dia e noite para cuidarem da filha. Essa fora um das poucas vezes em que estivera presente para atender a filha doente. Uma das ltimas vezes, tambm.
As lembranas eram muito fortes, reais. Queria tirar a mo das costas do menino, levantar-se e sair correndo daquela casa.
Charles continuava tossindo. Nathan fez a nica coisa indicada para esses casos. Relaxando a mo, comeou a bater levemente nas costas dele, parando apenas para dar-lhe mais um gole de gua. Em voz baixa, Nathan falava palavras de conforto. Para tranqilizar o menino e a ele mesmo.
	Est tudo bem, Charles. Voc vai melhorar. Tudo vai ficar bem.
A tosse foi diminuindo at cessar por completo. Ento, Charles fitou Nathan com os olhos marejados. Gotas de suor espalhavam-se pelo rosto dele. Nathan afastou-lhe os cabelos da fronte.
? Dr. Murphy?  Charles murmurou.
? Sim, filho.
	Voc acha que a mame tem daquela tinta? Aquela antimonstro?
Nathan sorriu. Um sorriso tmido, mas sincero. Ainda no se sentia totalmente  vontade com a criana, mas, estava sobrevivendo.
	No sei, Charles. Poucas pessoas conhecem essa tinta. Mas, prometo que vou conseguir uma lata. Vamos pintar as paredes de seu quarto e espantar todos os monstros.
Se ele pudesse espantar os seus monstros com a mesma facilidade! Mas, nada no mundo poderia mudar o passado. Seus monstros, aqueles que viviam dentro dele, estariam ali para sempre. No merecia livrar-se deles.
Quando Faith entrou em casa, a primeira coisa que viu foi Nathan sentado no cho. A mesa de centro estava encostada no sof. E, sobre ela, um jogo disputado por Nathan e Charles.
Observando Nathan manipular as peas do jogo, de repente, at pensou que fora uma boa idia permitir que ele cuidasse de Charles. De qualquer modo, ele estava exercitando as mos.
Voc ganhou, Nathan!  Charles anunciou, quando Nathan, finalmente, conseguiu juntar as peas do jogo.
Erguendo a cabea, Nathan deparou-se com o olhar apreciativo de Faith.
	Bem, consegui juntar as peas!  ele confirmou, meio rindo, meio desafiante.
	Voc venceu!  Faith repetiu num tom de avaliao.
? Nathan  bom no quebra-cabea, mame.
	Nem tanto, Charles  Nathan protestou.  Voc me deixou ganhar para eu sentir o gostinho do triunfo.  Olhou para Faith.  Seu filho ficou com pena das minhas mos. Acho que ele ganhou de mim umas dez vezes, no ?
	Ah, mas o mais importante  que ele sabe como livrar-se dos monstros, mame.
	 mesmo? E, como ?  Faith aproximou-se do filho, beijando-o no rosto.
	Nathan prometeu pintar meu quarto com uma tinta antimonstro. No  verdade, Nathan?
	E, sim.  Nathan lanou um olhar significativo para Faith.  Voc no se importa se pintarmos o quarto de Charles, no?
	Claro que no! Se  para nos livrarmos de todos os monstros, eu no me importo.
Levantando-se, Nathan aproximou-se de Faith. Evitando olh-lo, ela pegou algumas peas do jogo que ele ainda segurava.
	Obrigada, Nathan  ela agradeceu, tentando ignorar o calor que percorreu seu corpo quando seus dedos roaram a palma da mo de Nathan.  Muito obrigada, mesmo.
Procurando disfarar o embarao, ela se voltou rapidamente para o filho.
	Est na hora de arrumar essa mesa, Charles. Voc j est melhor e pode muito bem recolher as peas do jogo. Vou preparar o jantar. Creio que temos bifes no freezer.
	J vou indo, ento.  Nathan caminhou at a porta.  Voltarei dentro de duas horas. Est bem assim?
Faith no respondeu de pronto. Esperou at Charles descer do sof e levar os brinquedos para o quarto.
	Voc acha que sou to ingrata a ponto de deix-lo ir embora assim, depois de ter cuidado de meu filho o dia todo?
Nathan levantou a mo e fez um gesto no ar. Faith notou que ele no se preocupava mais em esconder as mos nas costas.
	No aceito pagamento por ter ficado com Charles. Ofereci-me para vir porque eu precisava disso.
? Porque voc no quer mais remorsos em sua vida.
? Sim.  Os maxilares dele se contraram.
	timo.  Faith cruzou os braos e encarou-o com expresso sria.  Ento, voc janta conosco.
	No, Faith. Voc chegou do trabalho, est cansada. No quero atrapalhar.
	Que bobagem! No tem cabimento voc ir para sua casa agora, preparar o jantar e voltar daqui a duas horas. Alm do mais, no posso permitir que o homem que prometeu espantar os monstros de minha casa, v embora sem jantar. Voc janta conosco e ponto final. Ordens da terapeuta.
? No sei...
? Voc ainda est com medo?
Nathan avanou um passo. Avaliou-a intensamente.
	De voc? De uma mulher do seu tamanho? De uma mulher que ameaa acampar em minha casa?  Encostou os lbios na orelha dela.  Absolutamente, Faith. Absolutamente. Nenhuma mulher jamais abalou minhas defesas tanto quanto voc. Nenhuma mulher jamais me assustou tanto quanto voc.
As ltimas palavras foram proferidas com convico, com voz enrouquecida, suave, acariciante. A respirao dele aquecia o rosto dela. Faith acreditava nele. Mas, estava to assustada quanto ele, com o que estava acontecendo entre ambos. Talvez, fosse melhor no t-lo convidado para jantar. Seria melhor se... Mas, ele estaria sozinho, preparando o prprio jantar numa casa vazia, sem calor humano.
	Apenas diga que vai ficar, Nathan  ela insistiu, tentando manter a voz firme, tentando sustentar o olhar dele, mesmo estando to prximos.  Vai ficar ou ser que precisarei convocar a artilharia?
Ela estremeceu. Suas emoes estavam to afloradas, correndo o perigo de serem expostas. A vontade de inclinar-se e comprimir os seios contra o peito dele era assustadora. O desejo de acariciar-lhe as costas quase a sufocava.
	Trata-se apenas de um jantar, Nathan. No quero mais do que isso. Nem voc. Sou sua terapeuta e sei o que  bom para voc. Um belo jantar ser timo para um homem que passou o dia inteiro cuidando de uma criana.
Faith forou um sorriso. Nathan ainda estava muito prximo. Os quadris quase se tocavam. Nervosa, ela mordeu o lbio, tentando conter a inclinao do prprio corpo.
	Pare com isso, Faith  Nathan disse num fio de voz.  Pare de agir como se fosse voc o meu jantar. Vou ficar, sim. Mis, s se voc parar de olhar-me desse modo. E, no se preocupe com os bifes. A promessa de acabar com os monstros no merece um jantar de primeira classe.
Lentamente, ele se afastou para dar-lhe passagem e espao para respirar... e pensar.
	Bobagem! So apenas bifes. E, como voc tem prtica em lidar com facas, poder cort-los, se quiser,  claro. Afinal, voc  cirurgio!
	Voc  uma mulher astuta e perigosa, Faith. Sabe como manipular um homem  ele completou, inesperadamente.
Ela o olhou por sobre o ombro.
	No, Nathan. No  nada disso. Estou apenas tentando agradecer-lhe. Voc cuidou de Charles hoje. Ajudou-me. Charles parece mais alegre, mais relaxado.
Graas a voc. Ser que  to difcil assim aceitar um simples agradecimento meu, sem discutir tanto?
Nathan abriu a boca para protestar, mas os dedos de Faith calaram-no.
 E s um convite para jantar. Voc no merece? 
Com os dedos dela ainda em seus lbios, Nathan pegou-lhe a mo, pousando-a em seu peito. Ela sentiu a maciez da pele, a rigidez dos msculos, o sobe-e-desce da respirao. Ele a manteve assim por alguns segundos, depois, soltou-a.
	Vou ficar e mostrar minha habilidade com a faca nos seus bifes, Faith.
Era uma vitria, claro, embora Faith notasse que Nathan no respondera s suas perguntas. Com certeza, ele no concordava que merecesse agradecimentos. Por isso, ela no podia evitar mais uma pergunta.
Ocupada com o preparo do jantar, esperou at ouvir Charles cantando na sala, para no serem interrompidos.
? Nathan?
? Sim, Faith?
Ela hesitou, sabendo que vasculhava assuntos que no lhe diziam respeito. Mas, queria saber. Ele se escondera por longo tempo e obstinadamente mantivera-se em recluso. No entanto, cedera s presses logo no primeiro dia em que ela fora  casa dele. Tanta obstinao no desaparece com tanta rapidez.
	Nathan, exatamente quais argumentos Dan Anderson est usando para convenc-lo a mudar de idia? Nunca perguntei a ele e jamais perguntarei. Mas, tenho certeza de que existe alguma coisa sob tanta insistncia. Tem a ver com sua profisso? Voc precisa de ajuda? Posso fazer alguma coisa?
No havia razo para Nathan responier a tais perguntas. Absolutamente nenhuma. Ela no significava nada para ele e Nathan era um homem orgulhoso. Jamais lhe pediria ajuda, ela sabia. Mesmo assim, ofereceu-a. Quaisquer que fossem as armas do Dr. Anderson, eram importantes para Nathan. E o terapeuta tinha que salvaguardar o senso de bem-estar do paciente. Por isso ela queria saber. S por isso.
	Nathan?  Voltou-se para olh-lo.  Posso fazer alguma coisa? Estou aqui para ajud-lo. No precisa responder, se no quiser. Mas, pode confiar em mim. No trairei seus segredos.
Os olhos de Nathan escureceram.
	Sei disso. Esse  o seu problema, Faith. Voc d muito, oferece muito. Voc  uma terapeuta dedicada, mas, no  prudente manter-se to aberta assim. As pessoas podem mago-la. Eu poderei mago-la.
Ela refletiu por um instante, antes de perguntar:
? Ento, no confia em mim?
? Sim... no. No  nada disso. Droga, acho que voc deve saber. Depois, voc vai descobrir o idiota que sou.  A ameaa de Dan no representa nada... ou representa tudo. Envolve minha irm Celine. Estou mentindo para ela desde o acidente. Ela pensa que estou bem, completamente recuperado. Acredita que estou trabalhando h sculos.
Faith inclinou a cabea, sem entender direito a explicao.
? Por qu?
	Poi que no contei a ela? Por que se ela soubesse da verdade, viria correndo. Celine ...  Ele abriu os braos e encolheu os ombros.  Celine  famlia. Ela tem uma grande famlia. Cinco crianas maravilhosas. Celine  o prottipo do verdadeiro significado de lar. Calor, afeto, cuidados. Uma yerdadeira mezona. Se souber a verdade, ela pega o primeiro avio e aparece na minha casa. E se vier, traz...
? As crianas?  Faith completou.
	E, muito mais. Fotos, lgrimas, solidariedade, abraos, canja de galinha, sorrisos... lembranas. Ela traz  tona muitas lembranas. Todas as lembranas.
	Voc no suporta, no e?  Faith queria aproximar-se dele, enla-lo pela cintura e oferecer-lhe tudo o que ele se negava a receber da irm. Com esforo, manteve-se  distncia.  Voc no suporta nada disso, no , Nathan?; Famlia, lembranas.
Seguiu-se um longo silncio, quebrado apenas pelos resmungos de Charles, que brincava na sala.
Finalmente, Nathan suspirou. Passou a mo pelo queixo, ignorando a pergunta dela.
	Aceito o que voc me oferece para esta noite, Faith. Terapia e bifes.
Nada mais do que isso, ela pensou. Nunca mais algo alm disso, naquela noite ou em outras noites. Independente da inteno, Nathan mandara-lhe um aviso que ela no esqueceria.
Nathan fora embora. De pijama, Charles apareceu na porta do quarto de Faith.
 Mame?
Com o j familiar pedao de papel na mo, ele a olhava com infinita ternura. Faith comoveu-se. Era disso que ela precisava. Um momento com Charles. Um momento para olhar para a frente, para um futuro que no inclua Nathan.
	Mame, voc precisa mudar uma coisa aqui. Tenho um problema.
	Um problema, campeo? O que h de errado?  Pegou o papel que Charles lhe estendia.
 Leia a lista  ele pediu meio confuso.
Faith pigarreou.
	Cabelos pretos e olhos castanhos. Mdico no. No ter medo de monstros, nem de crianas. Baixo.
? Baixo?  Charles gritou.  Eu no disse isso!
	No.  Faith espantou-se por sentir-se corando.  Eu escrevi por minha conta. Afinal, sou baixa tambm  justificou-se.  Ser cansativo passar minha vida olhando para um gigante.
Charles franziu as sobrancelhas.
	No  bom.  Balanou a cabea.  Quero mudar uma coisa.
	Est bem.  Ela pegou o lpis que ele lhe estendia.  O que voc quer mudar?
	Baixo no. Mas, no se preocupe, me, voc vai crescer. Risque a "Cabelos pretos e olhos castanhos". Acho mais divertido ter um pai que no seja parecido comigo. Pode deixar "No ter medo de monstros, nem de crianas". Agora, escreva...
	Charles.  Faith adivinhava o que estava acontecendo, o que ele diria em  seguida.  Charles, melhor no alterarmos muito assim de uma vez. Temos tempo,
muito tempo. Agora, j  tarde. Vamos deixar para quando estivermos mais  descansados.
Pelo modo como Charles ergueu o queixo, Faith percebeu que ele iria argumentar. Gentilmente, pousou o dedo nos lbios dele.
 Por favor, Charles. Mame est cansada.
Era um desculpa frgil, quase uma mentira. Entretanto, no estava disposta a passar mais uma noite em claro, pensando nas novas exigncias do filho em relao ao futuro pai.
	Ok  ele concordou, por fim.  Mas, leia de noyo e aponte cada palavra com o lpis. Devagar. Quero ter certeza do que escrevemos.
Faith leu os itens que sobraram da lista. Como ele pedira, ela ia mostrando cada palavra que lia.
	Mdico no. No ter medo de monstros, nem de crianas. Est contente?
Charles parecia ctico.
? S mais uma coisa  pediu.  S mais uma. Faith soltou um longo suspiro.
? O qu, meu filho?
	 Escreva: No precisa ser bom com quebra-cabea. Porque eu posso ensin-lo  explicou.  Eu sou muito bom com quebra-cabea.
	Charles  ela falou com suavidade. Detestava a idia de destruir a esperana recm-nascida, mas precisava faz-lo.  O Dr. Murphy no pode ser seu pai. Esquea.
Ela esperava que Charles a questionasse. Porm, para sua surpresa, ele simplesmente concordou.
 Sei, mame. Hannah disse que era uma pena
Nathan no poder casar de novo, porque ele seria um bom marido. Ele no pode ser meu pai se no se casar, no ?
? Hannah disse isso?
	Disse. Para o Nathan mesmo. Eu ouvi. Ele fez cara feia para ela. No perguntei nada para Nathan no ficar bravo comigo.
 Entendo. Ento, por que quer alterar sua lista?
Encolhendo os ombros, Charles tirou-lhe o papel da mo.
	Talvez, exista outro homem que conhea essa tinta antimonstro. Como na tev, quando um cara tem um irmo gmeo que nunca viu. Talvez exista algum igual a Nathan.
Decididamente, Charles andava assistindo televiso demais. Naquele momento, porm, aquele no era o tpico mais importante da conversa.
De repente, ela se pegou partilhando das esperanas do filho. Talvez, em algum lugar, existisse algum igual a Nathan.
Mas, no. No havia ningum igual a Nathan. Logo, no haveria nem mesmo Nathan na vida de Charles e na dela. Aquele era o objetivo da terapia. Tratar do paciente e deix-lo ir.
No poderia esquecer-se disso em momento algum.



CAPITULO VII

Dois dias depois, na hora em que Nathan ia embora, Faith informou-o que Charles j tinha condies de voltar  vida normal.
	Muito obrigada, Nathan  agradeceu.  Obrigada por ter cuidado de Charles. Mais tarde, ligarei para Mandy avisando-a de que segunda-feira ele ir para a casa dela, depois da escola. Como Mandy concordou em ficar com ele  noite tambm, irei  sua casa no horrio de sempre.
Nathan olhou para a mo dela, fina e pequena, estendida para um aperto de mo impessoal. Aquela mo fizera-o sofrer de dor fsica logo no incio das sesses. Aquela mo o confortara, o encorajara. Tambm tocara-o muitas vezes, com carinho. Conhecia o prazer daquelas mos em seu peito enquanto ele a beijava nos lbios.
Naquele momento, porm, ela era toda profissionalismo, toda formalidade. Exatamente como ele sempre desejara. No queria lembrar-se de como Faith o desequilibrava sempre que se tocavam. Preferia aceitar aquele gesto polido e sair depressa daquela casa. Ainda assim...
Ignorando a mo estendida, Nathan fitou-a nos olhos.
 Voc est dizendo que estou despedido, Faith?
Lentamente, ela baixou a mo.
	Claro que no!  Ela sorriu, meio confusa.  Ambos sabemos que voc estava apenas me fazendo um favor e...
Nathan segurou-lhe a mo. Acariciou-a gentilmente, preparando-a para o que tinha a dizer.
	Ambos sabemos que foi apenas por alguns dias. Acontece que Charles est um tanto empolgado com o meu trabalho. Na verdade, ainda tenho que cumprir a promessa de pintar o quarto dele. Assim, creio que terei que ficar mais alguns dias.
	Mais alguns dias?  Desvencilhando-se, ela cruzou os braos. Apertou os olhos de um jeito que Nathan j conhecia muito bem.  Quantos?
	Vai depender do vento. Isto , tambm prometi ensinar-lhe a empinar pipa e... outras coisas. No muitas.
	Nathan, Nathan... Por que prometeu tantas coisas? Sei que voc no quer passar mais tempo conosco, alm do necessrio. Sei que no  fcil para voc.
	Ora, eu sobrevivi. Alm do mais, Charles no tem culpa de nada. Ele estava doente, manhoso e o mnimo que eu poderia fazer era distra-lo.
	No precisa sentir-se responsvel pelo bem-estar do meu filho. No se preocupe. Explicarei a ele que...
	Nem pensar, moa  Nathan a interrompeu.  Posso no ser um exemplo maravilhoso de homem, Faith, mas ainda sou um homem de palavra. Cumprirei todas as minhas promessas. Charles  um garoto incrvel e detesto... Bem, nada contra a bab, Faith, mas parece que a mulher conhece apenas o controle remoto da televiso. Ela no imagina que uma criana possa fazer milhes de outras coisas no tempo livre, alm de ver televiso. No vou morrer se passar algumas horas ao ar livre com seu filho.
	Tem razo. Eu sabia... tenho percebido que ele est assistindo televiso demais, mas  to difcil encontrar babs  Faith admitiu.  Eu me sinto to culpada. Permitir que voc cuide dele, quando sou eu quem deve brincar com ele, ensinar-lhe certas coisas.
Nathan segurou-lhe o queixo, obrigando-a a encar-lo.
	Voc far tudo isso, sim, Faith. Quando tiver tempo, quando livrar-se de mim e diminuir seu horrio de trabalho. Voc ama seu filho, sabe das necessidades dele. Voc  uma boa me, Faith.
	Voc  um bom homem, Nathan. Realmente, um bom homem.
Nathan no respondeu. Nem podia. Faith estava enganada. Se fosse realmente um bom homem, ele no estaria ali naquele momento. Se fosse realmente um bom homem, teria evitado a morte da esposa e da filha. Algumas brincadeiras com um garoto melanclico, um dia empinando pipa no parque, ou pintando o quarto dele para espantar os monstros, no apagariam o passado. Nada apagaria.
A casa estava vazia quando Faith voltou do trabalho, algumas semanas depois. O tique-taque do relgio enfatizava o silncio. Acostumara-se com o riso de Charles misturado  voz grave de Nathan. De certa forma, ela estava sendo beneficiada. Os poucos dias de Nathan haviam se transformado em semanas.
"O vento no est propcio para pipas", Charles explicara quando ela tocara no assunto e Nathan no o desmentira. Nathan pintara o quarto. Nathan ensinara a fazer a pipa. Nathan no queria desapontar Charles. Nathan... E, assim, o tempo foi passando.
Ela deveria ter tomado uma atitude. Deveria ter telefonado para Mandy e insistido para Charles voltar  antiga rotina. Em vez disso, no fizera absolutamente nada, encantando-se com os sorrisos que Nathan levara ao rosto de Charles. Aquilo estava errado. Ela estava errada, mas, no parara para pensar. E, em meio ao silncio que a inesperada ausncia de Charles e Nathan causava, ela no poderia mais esconder-se de seus pensamentos e culpas.
Na cozinha, encontrou um recado preso  porta do refrigerador. Estava escrito com letras grandes, de forma, irregulares. Obviamente, tratava-se de um trabalho de equipe. Nathan ditando e Charles escrevendo. Leu em voz alta:
 Fomos ao parque. Voltaremos logo.
Maravilha! Teria alguns momentos de solido, uma comodidade que havia muito no usufrua. Poderia colocar os ps para cima, folhear uma revista com uma xcara de caf ao lado. As possibilidades desfilavam diante de seus olhos, tentadoras. Ento, por que foi direto para o quarto e vestiu jeans e camiseta? Por que calou tnis velhos e confortveis?
Porque era louca, tola. Porque precisava de exerccios ao ar livre. Porque o dia estava bonito. Porque adorava ver Nathan e Charles juntos.
Era muito simples. O homem e a criana rindo, brincando, rolando na grama, divertindo-se. Desafiando-se em jogos, discutindo sobre o animal mais feio do mundo. Uma vez, encontrara-os dormindo juntos no sof. A cabea de Charles apoiada no ombro de Nathan. Como poderia resistir? Como poderia perder um minuto, quando o tempo passava to rpido?
Ela no deveria ter permitido que as coisas chegassem naquele ponto. No seria bom para Charles. Nem para Nathan. Principalmente porque a terapia estava quase chegando ao fim.
Fechando a porta, Faith fez a caminhada em direo ao parque, no fim do quarteiro. O local estava repleto, mas no avistou Charles, nem Nathan. Olhou ao redor. No estavam na quadra de basquete, nem no tanque de areia, nem sentados nos bancos. Depois de caminhar alguns minutos, finalmente ouviu o som da risada de Charles encantado com as piruetas da pipa verde.
Charles olhava para a pipa, depois para Nathan. Seu rosto refletia a adorao pelo homem que lhe proporcionava tantas alegrias. Faith sentiu uma pontada de cime. Nathan conquistara a confiana de Charles. Assim como conquistara a dela.
No, no queria pensar dessa maneira. Tampouco queria parar para pensar em seus sentimentos. Preferiu observar as mos de Nathan. Era sua funo. Era com isso que deveria preocupar-se. E, no com o vazio que logo ficaria em sua vida e na de Charles. No deveria pensar na falta que sentiria daquele homem discutindo, implicando, tocando-a.
Nathan manejava a linha com desembarao. Automaticamente. Facilmente. Faith descobriu o que j suspeitava, apesar de achar que precisava de mais tempo para ter certeza. Mas a verdade estava ali. Clara, inegvel, escrita nos movimentos dos dedos de Nathan controlando a linha de pipa. No podia ignorar a realidade que se desenrolava diante de seus olhos. No poderia fingir que Nathan ainda precisava de sua ajuda.
Logo, Nathan retomaria seu caminho. Voltaria ao hospital. O tempo estava passado. Ela conclura seu trabalho.
Viu quando Nathan passou a linha para as mos de Charles. Aproximando-se mais, ouviu Charles exclamar:
  to divertido, Nathan. Quero empinar pipa outras vezes com voc.
 Eu tambm, filho.
Faith sabia que essas palavras no significavam nada. Nathan estava saindo da vida deles. Ela teria que cortar aquele vnculo. Falaria com ele naquela noite.
Depois que Nathan terminou os exerccios, Faith foi para a cozinha. Ela no estava em seu estado normal. No costumava ficar to nervosa. Evitava fit-lo nos olhos. Agia desse modo por no compreender exatamente o que estava sentindo e no queria que ele percebesse seu estado emocional. No era o momento de mostrar-se emotiva ou confusa. Nathan chegara ao fim do tratamento. Mais do que nunca, ela precisava ser forte.
Nathan levantou-se e Charles despediu-se dele. Assim que o menino foi para o quarto, Nathan apareceu na porta da cozinha, sorrindo, preparando-se para as despedidas. Faith pigarreou.
	No v ainda. Espere at eu colocar Charles na cama. Quero conversar com voc.  Rapidamente, sem dar tempo para ele contestar, ela seguiu para o quarto do filho.
Voltou minutos depois. Nathan a esperava na sala de estar, com expresso surpresa e ansiosa. Observava as prprias mos, abrindo e fechando os dedos, testando a flexibilidade.
Ele sabe, Faith pensou. Ele j sabe o que vou dizer.
	Faith, voc vai me repreender porque tirei Charles de casa sem sua permisso?  ele perguntou. Pelo brilho dos olhos, ficava claro que ele no acreditava nisso.
	No, absolutamente. Vocs deixaram um bilhete. Charles divertiu-se muito. Por que eu me oporia?
	Foi o que pensei. Ento, do que se trata? Ser que minhas suspeitas tm fundamento?
Faith sorriu. Um sorriso forado, profissional. O tipo de sorriso que ela detestava quando via no rosto de outras pessoas. Mas, era necessrio naquele momento. Ela lhe daria boas notcias e confirmaria as suspeitas dele. A longa espera terminara. Ele estava livre. Era sua funo dizer-lhe a verdade e sentir-se feliz porque ele atingira a meta.
Ela estava feliz. Estava  beira das lgrimas, observando-o flexionar os dedos, sabendo que ele tinha a vida de volta, pelo menos em parte.
	Voc no precisa mais de mim  anunciou sem prembulos  Era o que eu queria lhe dizer. Eu j sabia que voc estava muito prximo da recuperao. Hoje, ao v-lo manuseando aquele fio de linha com tanta graa e desembarao, tive a confirmao. Est absolutamente claro que voc est curado, Dr. Murphy. Ou, pelo menos quase. Agora, vai depender de voc retomar a vida normal.
	Isso significa que no estou exatamente em condies de tocar piano?  Foi uma tentativa de amenizar o clima, uma vez que Faith parecia a ponto de desmanchar-se em lgrimas.
? Voc toca piano? Eu no sabia.
	Nem eu!  Ele forou um sorriso. Aproximando-se, ele pegou as mos que Faith torcia nervosamente.  S quis dizer que ainda no estou pronto para abrir pessoas e resolver seus problemas de sade. Estou, Faith? Ento, como pode estar to segura de que no preciso mais de voc?
Ela esperou at desaparecer o n que se formara em sua garganta.
 Estou absolutamente certa. O resto s vai dependei de voc.  uma questo de tempo e de dar continuidade aos exerccios. Mesmo assim, voc est em perfeitas condies para voltar ao trabalho, obedecendo certos limites, claro. Voc poder atender s consultas, acompanhar tratamentos. Eu no menti, Nathan. Realmente, voc no precisa mais de mim.
	Ento, estamos encerrando tudo esta noite?  A voz soou rspida. Ele apertava o brao dela com fora.  Assim, sem aviso prvio?  Condoa-se com a expresso desolada dela. Mas, pelo menos, ela no exibia mais aquele sorriso profissional, frio, ensaiado, que tanto o irritava.
O que ele esperava, afinal? Desde o incio, Faith nunca escondera que s aceitara cuidar dele por imposio de Anderson. No havia motivo para sentir-se daquele modo, como se algo estivesse se rompendo dentro dele. Como se o pnico estivesse a ponto de explodir em seu peito.
Soltando um longo suspiro, Nathan endireitou o corpo. Por que o drama? No era o que ele queria? Se a sensao de alvio ainda no viera, era por que no estava preparado para receber a notcia. Logo, ele acordaria e perceberia que, finalmente, chegara o momento pelo qual esperara desde o incio do tratamento.
	Ora, Nathan, a alta foi se tornando cada vez mais concreta  medida que seus dedos iam ganhando mais movimento, mais flexibilidade. Depois, as coisas no precisam ser assim to drsticas. Passaremos o fim de semana preparando-o para o retorno  sua vida,  sua carreira. Vou lhe dar a sustentao e a assistncia  necessrias para que sua recuperao seja cem por cento perfeita. No o abandonarei, Nathan. S me afastarei quando tiver certeza de que voc est pronto.
Nathan no conseguiu sustentar o olhar cheio de desculpas de Faith. Ele se sentia um verme. Um egosta por faz-la sentir-se mal s porque ele no precisava mais de atendimento teraputico.
? Faith.  Ele segurou-lhe as mos.  Pare de ficar me pedindo desculpas. No mereo. Ser que voc ainda no aprendeu a no ouvir tudo o que eu digo? Voc no percebeu como sou estpido? Tenho lhe falado tantas coisas speras! Ainda h pouco, quando falei em aviso prvio, eu estava brincando, Faith.  Passou a mo pelos cabelos.  No posso acus-la de nada. Voc  a melhor terapeuta do mundo. Voc me enfrentou, apesar de t-la praticamente expulsado de minha casa. Quando ningum, alm de Dan, tinha pacincia para ficar comigo, voc ficou. Por favor, no pense que a estou criticando. Estou apenas me adaptando, acostumando a pensar em mim como um homem inteiro.
? Voc est feliz?
No, ele no estava feliz. Provavelmente, nunca mais conheceria o verdadeiro significado dessa palavra. Mas Faith no se referia  sua vida pessoal, e sim, ao fato de estar recebendo o sinal verde para retomar a carreira que, um dia, representara tudo para ele.
 Estou feliz, sim.
Era uma mentira monstruosa. Porm, em poucos dias, quando ele assimilasse a nova realidade, quando se conscientizasse de que estava livre de Faith Reynolds, ele seria feliz, com certeza. Pelo menos o peso da presena de Faith desapareceria de sua vida.
 Estou feliz  repetiu.  Obrigado. Se hoje ainda no  o fim, quando, exatamente, cortaremos esse cordo que nos mantm presos, Faith? Quando daremos um fim a essa coisa de uma vez por todas?
Faith hesitou. Mordeu o lbio.
? Ns... Digamos, sexta-feira.  De novo, o sorriso profissional.  Isso nos dar tempo para termos certeza de que est tudo realmente em ordem.
? Sexta-feira...  O final da semana. Uma deciso lgica.  Por que no no sbado?  Nathan no acreditava que fora ele o autor da pergunta. Afinal, no havia razo para prolongar ainda mais aquela situao. Por outro lado, justificava-se com a desculpa de que nunca vira Faith nos fins de semana.
	Sbado?  Ela inclinou a cabea. Nos olhos azuis-esverdeados, uma sombra de aborrecimento. Ela mordeu o lbio e Nathan desejou que ela no fizesse aquilo. Preferia que ele apenas sorrisse.  Desculpe, mas acho que no entendi. Por qu?
Nathan deu um passo na direo dela, bloqueou a mente para o bom senso e at conseguiu sorrir.
	Faith, no questione o inevitvel. Um dia, voc me disse que a gratido  um sentimento comum entre paciente e terapeuta. Nesse caso, j que chegamos ao fim de nosso percurso, quero a oportunidade de demonstrar meus agradecimentos. Voc me devolveu as minhas mos e no uma coisa qualquer. Alm disso, fiz uma outra promessa a Charles. Coisa simples, Faith. No se preocupe. No vou causar-lhe embaraos.
? No estou preocupada com isso. Mas, no sei se...
	Shh.  Ele se aproximou ainda mais, tanto que os corpos quase se tocaram. Silenciosamente, ele enterrou os dedos nos cabelos dela, algo que desejara fazer desde o primeiro dia. No a beijaria. No naquela noite. No a aborreceria de novo. Mas tinha que sentir aquelas mechas sedosas antes que tudo terminasse. Para sempre.
? Coisa simples, Faith. Com voc. Com Charles. Eu errei desde o comeo. Maltratando-a, expulsando-a, discutindo por tudo e por nada. Quero terminar corretamente. Ser nossa ltima vez juntos. Vamos terminar com uma bomba, exatamente como comeamos. Deixe-me agradecer, Faith. Deixe-me fazer essa ltima coisa .
Gentilmente, roou os lbios nos cabelos dela. No foi um beijo, disse a si mesmo. Mesmo assim, sentiu-a estremecer. Ela estava to perto dele que os coraes pareciam bater em unssono.
 Nathan  ela murmurou com a voz carregada de emoo.
No, no era verdade, Nathan pensou. Era imaginao dele. Ele estava projetando as prprias emoes em Faith. Queria acreditar que ela sofreria tanto quanto ele com aquela separao.
Bobagem. Num futuro prximo, quando eventualmente se cruzassem pelos corredores do hospital, seria como se aquela convivncia nunca existira... para nenhum deles. Assim que deveriam agir. Amigavelmente, impessoalmente. No com ele querendo pux-la para seus braos.
Nathan soltou-a abruptamente. Queria pedir-lhe para esquecer a sugesto. Poderia ser um erro querer transformar a ltima vez em algo especial. S tornaria o perodo de adaptao mais longo e mais penoso.
Fitou-a longamente e, por um timo, acreditou ver uma sombra de dor nos olhos dela. Fechou os olhos, ignorando o medo que apossou-se dele. Claro, enganara-se. Com certeza, ela estava constrangida porque ele a estava tocando depois de prometer que no mais a tocaria. No suportava a idia de mago-la. Era muito importante poup-la. Por isso, lutara ferozmente contra ela. Por isso, lutara ferozmente contra ele mesmo, para evitar toc-la quando sua vontade era de estreit-la nos braos, beij-la inteira, lev-la para a cama e passar horas fazendo amor.
Ele sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Nunca pensara em tal coisa. Nunca se permitira pensar. Era uma idia louca, estpida. No conseguia ficar perto dela sem imagin-la nua em seus braos, tocando-o, deixando-se tocar. Um dia mais e a situao pioraria.
Nathan abriu a boca para cancelar tudo o que propusera. Para dizer que nem precisariam esperar at sexta-feira. Que poderiam encerrar o tratamento naquela noite mesmo. Certamente, Dan lhe explicaria tudo o que precisava saber.
Inesperadamente, Faith ficou na ponta dos ps. A voz dela interrompeu-lhe os pensamentos.
 Ok. Terminaremos no sbado  afirmou, decidida.  Voc tem razo. Ser mais conclusivo. Gosto das coisas muito bem definidas.
As palavras dela trouxeram-no de volta  realidade. Ela dera outro sentido  sugesto dele. Faith queria um final mais conclusivo. Ele tambm. Poderia ser muito melhor para ambos. Para todos.
Tinha que ser melhor. Nathan no suportava ver a mgoa nos olhos dela. No queria conviver com a culpa de ter sido o responsvel por aquela mgoa. Tinham que separar-se rapidamente, antes que ele realmente a magoasse.

Depois que Nathan partiu, Faith andou pela casa recolhendo os livros e brinquedos de Charles. No tivera cabea para mandar Charles recolh-los antes de dormir. No naquela noite quando estava prestes a perder Nathan.
Como sempre, abriu a porta do quarto para espiar o filho. Ele respirava lenta e regularmente. A boca relaxada e entreaberta.
A luz do abajur formava sombras na parede. Mas, Charles no se assustava mais. Nathan expulsara os monstros. Restava saber se eles voltariam depois que o homem que os espantara fosse embora.
Ela esperava que no. Esperava que o remdio de Nathan fosse definitivo, independente do homem. Porque ela no poderia procur-lo depois que ele se fosse. Charles e ela nunca mais ficariam perto dele. Soube disso no momento em que ele a abraou. Diria adeus mais uma vez e seria forte. Mais do que isso seria pedir demais para si mesma.
Ao ajeitar os lenis, ela viu um pedao de papel na mo do filho. A lista. A cada dia tornava-se mais pattico examinar aquela lista. Charles olhava e segurava aquele papel como se fosse um tesouro. Um papel amarrotado que continha as promessas de algo que ele desejava fervorosamente.
Delicadamente, tirou o pedao de papel da mo dele. O lpis vermelho caiu da cama, rolando pelo cho.
Ela alisou cuidadosamente o papel at desamass-lo. Leu os itens que restaram. No ter medo de monstros, nem de crianas. No precisa ser bom em quebra-cabea. Porm, foi a ltima linha da lista que a fez estremecer. Seus olhos embaaram e ela piscou para impedir que as lgrimas escapassem. Onde ela escrevera Mdico no, a palavra no fora riscada com o lpis vermelho.
Ela lembrou que Charles lhe pedira para apontar as palavras conforme as lia. Agora, descobria o motivo. Ele queria saber. Mdico. A palavra parecia gritar para ela. Mdico. Charles queria um mdico como pai.
No. Charles queria Nathan. Queria apenas Nathan.
E, que Deus a ajudasse. Ela tambm queria.
Amava Nathan Murphy, apesar de tudo. Apesar de Nathan no querer amar. De no poder amar, nem a ela, nem a ningum mais, por ser prisioneiro do passado. Mas nada disso fazia a menor diferena para o que ela estava sentindo. Ela o amava. Gostando ou no, amava-o, sim. Ela no gostava, absolutamente. Entretanto, era verdade. De algum modo, precisaria superar os prximos dias. Depois, s depois, comearia a aprender como no amar Nathan Murphy.

CAPTULO VIII

A semana voou e, de repente j era sbado, Faith estava determinada a mostrar-se entusiasmada e encarar a despedida de Nathan como a de qualquer outro paciente.
Levantou cedo, preparou um esplndido caf da manh, planejou atividades para ela e Charles. Poderiam limpar a casa, ir ao parque, ler, desenhar. Eram passatempos simples, mas divertidos.
No final da tarde, j no sabiam mais o que fazer. Em vez de alegres, sentiam-se desanimados. Faith estava irritada consigo mesma, por sentir-se daquela maneira, por ansiar que o tempo passasse para que Nathan...
	Mame?  A voz aguda de Charles interrompeu os pensamentos dela.
	Sim, querido? Quer saber as horas de novo? No faz nem dois minutos que voc perguntou  ela disse num tom indulgente.
Sentado no cho, com as pernas cruzadas, ele desenhava na mesa de centro.
	No, me. Sei que Nathan ainda vai demorar. Voc me disse. Quero que soletre uma coisa para mim. Como se escreve Grande?
Grande?  Faith ergueu uma sobrancelha, surpresa. Raramente, Charles lhe pedia para soletrar palavras.  Ok. Vamos l.  Ela soletrou e Charles escrevia, apertando a lngua entre os dentes.
? Ok. Agora, cabelos.
	O que voc est escrevendo, afinal?  Inclinando-se, ela tentou ler o que ele escrevia.
? Nada, me. S mais uma palavra, t? Uma s. Ela encolheu os ombros.
? Quantas voc quiser, querido. Diz a palavra.
? Amarelos.
Faith encarou o olhar determinado de Charles. Deixando o desenho de lado, ele escrevia num pedao de papel. De imediato, Faith reconheceu a lista. Viu que ele escrevera Grande ao lado da palavra Baixo, j riscada. Ento, ela compreendeu que o prximo item seria Cabelos amarelos. Sua primeira reao foi protestar, explicar novamente que as coisas no eram bem como ele desejava. Porm, ela reconsiderou a tempo e simplesmente soletrou a palavra. Aquele no era o momento para discusses. J explicara ao filho que Nathan no poderia ser seu pai. Charles sabia, mas no se importava. Continuava descrevendo Nathan em sua busca por um pai. Nada o faria mudar de idia. Somente o tempo e a ausncia de Nathan o convenceriam da realidade.
Distncia de Nathan, era o que ambos precisavam.
Faith comprimiu os lbios. Seu corao era to teimoso quanto Charles. Ela ainda queria um dia com Nathan. Mais um dia perto dele. Mais um dia para acumular lembranas que durariam para sempre.
Nathan chegou com rosas. Muitas rosas vermelhas. Da cor das faces de Faith quando ela se inflamava, ou se embaraava.  Fora seu primeiro pensamento quando chegara  floricultura. Comprara as rosas porque prometera a Faith. Porque as flores o faziam lembrar-se dela. Porque uma mulher como Faith deveria receber flores... sempre. No porque ele estava tentando conquist-la. Ou dizer lhe algo especial. No faria isso, mas, mesmo assim...
	Apenas uma lembrana  explicou, entregando-lhe as rosas vermelhas, assim que Faith abriu a porta.  E, claro, por gratido.  Sorriu meio sem graa.  Por
suportar-me, por no me virar as costas, por no ter batido em meu rosto, quando deveria ter feito isso.
 isso a, Nathan, advertiu a si mesmo. V com calma, sem complicaes.
 So para comemorar o fim da terapia.  Ela repetia o que ele dissera tantas vezes.
Faith estava certa. Era exatamente o que eles deveriam fazer naquela noite. Comemorar o fim da terapia. Celebrar o tempo que haviam passado juntos e o fato de no serem mais obrigados a conviver tempo algum. Porque ela fizera seu trabalho muito bem. Porque ele trabalhara arduamente.
Entretanto, uma hora mais tarde, no parque de diverses, Nathan perguntava-se o porqu daquele passeio parecer tudo, menos uma celebrao.
Por causa de Faith, ele admitiu. Ela estava to bonita, parada ao ar livre, com os cabelos esvoaantes. O short branco e a blusa cor de jade ressaltavam as curvas do corpo delgado. Ela transpirava sensualidade... e, ele nunca mais a veria assim.
Obrigando-se a desviar o olhar, voltou-se para Charles que se divertia entre os brinquedos do parque. Quando, por fim, Faith chamou Charles para irem embora, o menino protestou.
	 cedo ainda, mame. Quero brincar mais um pouco.
	E cedo, mas ainda tenho que dar algumas instrues a Nathan. O que acha de tomarmos sorvete em casa?
Nathan olhou-a, surpreso. No esperava voltar para a casa de Faith. Imaginava que as despedidas aconteceriam no parque mesmo. Num local pblico, onde ele no correria o risco de dizer ou fazer coisas das quais poderia arrepender-se, depois.
Faith no estava olhando para ele. Alis, ela evitava olh-lo desde que saram de casa. Sabia que ela j o havia riscado de sua vida. Estava apenas esperando o momento de livrar-se dele para sempre.
No caminho de volta para casa foi feito no mais absoluto silncio. Por muitas vezes, Faith sentiu o olhar de Nathan, mas ela olhava fixamente para a frente. Se ela o olhasse, estaria perdida. Seus sentimentos estavam  flor da pele, visveis, apesar dos esforos para escond-los. Tinha que reassumir sua postura profissional.
Em casa, depois de servir o sorvete, ela se sentou na sala, ao lado de Nathan e Charles. Notou que o garoto comia devagar, sem entusiasmo, ignorando o creme de chocolate, que ele tanto adorava.
Ela se voltou para Nathan.
	Tudo bem, prepare-se, Dr. Murphy. Hora do discurso. No pense nem por um instante que vai parar com os exerccios s porque no precisa mais de terapeuta. Voc ainda ter que praticar todos os dias, todas as noites, para manter a flexibilidade. S assim se recuperar totalmente. Entendeu, Nathan? No tenha preguia.  Ela falava depressa, sem parar para respirar.  E, sobretudo, policie-se. Imponha-se uma disciplina rgida para evitar cair nos maus hbitos. No estarei por perto para adverti-lo. Tambm no quero que regrida. Absolutamente.
Nathan sorriu com desdm. Inclinando-se, empurrou sua taa de sorvete para frente.
 Foi para isso que me trouxe at aqui? Para repreender-me?
Encolhendo os ombros, ela o olhou como se pedisse desculpas.
 Certas coisas no se dizem em pblico.
A risada dele foi baixa, sensual. Os olhos verdes estavam mais escuros, tentadores. Um convite para que Faith se aproximasse mais.
	Oh, Faith, vou sentir sua falta! De voc e de suas ordens de professora de primrio. De suas tticas de domador de lees.  Endireitou o corpo, suspirou fundo e desviou os olhos, libertando-a do fascnio de seu olhar.  Olhe, Faith, o fato de no querer provocar um ataque de mau humor em voc, de certa forma, foi um grande incentivo para obrigar-me a exercitar minhas mos. Sem voc por perto...
Faith ergueu-se repentinamente. Cruzando os braos, estreitou os olhos para ele.
	Nathan Murphy, ser melhor no relaxar, nem isolar-se de novo naquela casa. Se isso acontecer, eu...
Levantando-se tambm, ele parou ao lado dela. Ele estava to perto que Faith teve a impresso que, se respirasse fundo, tocaria na pele dele.
	O que voc faz, Faith? Invade minha casa de novo? Arma uma barraca diante da minha porta, como voc ameaou? Golpeia meu peito com seus punhos delicados? Voc ficaria surpresa se soubesse o quanto sentirei a falta desse seu lado autoritrio.
E, ela sentiria falta dele. Dele por inteiro. Abalada pela proximidade, pela fora de suas emoes, Faith fechou os olhos. No queria que Nathan visse a mgoa que, com certeza, estava estampada em seu rosto.
Imediatamente, ele recuou e levantou as mos.
	No foi um insulto, Faith  ele se desculpou, interpretando erroneamente a inquietao dela.  Eu brinquei. Realmente, eu a admiro muito, voc sabe. Anderson no poderia ter me mandado uma fisioterapeuta melhor. Vou voltar ao trabalho. Nunca mais me esconderei. Nunca mais me entregarei ao desespero. No a decepcionarei, Faith.  Afagou-lhe o queixo com o n dos dedos.  Isso  tudo, no? Chegou minha hora de sair de cena.
	Nathan?  A voz de Charles soou aguda, vinda do outro lado da mesa.
Faith olhou para o filho. Charles tinha os olhos arregalados e cheios de lgrimas. O sorvete esquecido na taa, transformara-se numa mistura de branco e marrom.
	No v, ainda, Nathan. Ok? Tenho uma coisa que quero lhe mostrar. Voc espera?
	No se preocupe, Charles. No vou embora sem despedir-me de voc.
Charles mordeu o lbio. Lentamente, desceu da cadeira e saiu correndo da sala. Voltou em seguida, trazendo algo na mo. Quando Faith percebeu do que se tratava, sentiu-se congelar.
 No, Charles  pediu.  Leve isso de volta para o seu quarto.
Tarde demais. Charles j colocara o papel na mo enorme de Nathan.
 Nathan  ela disse, tentando pegar o pedao de papel. No suportava a idia de Nathan lendo a lista de Charles. No suportaria o olhar de decepo do filho.  No  nada... nem perca tempo lendo.
Mas, eleja estava lendo. As palavras que Faith sabia de cor desfilavam diante dos olhos dele. Lista de Papai. No ter medo de monstros, nem de crianas. No precisa ser bom em quebra-cabea. Mdico. E as ltimas incluses de Charles. Alto. Cabelos amarelos.
Piscando, ela se voltou para o filho. Charles observava Nathan lendo. Sua esperana, seu amor, estavam refletidos em seu olhar. De repente, Faith compreendeu que permitira que Charles fosse longe demais. Ela deveria ter acabado com aquela histria logo no incio.
Virando para Nathan, ela tentou pensar num modo de faz-lo entender do que se tratava, e, de certa forma, poupar Charles.
? Isso ... ...
	A Lista do Papai  ele murmurou com voz enrouquecida.
Nathan viu o medo refletido no rosto de Faith. Viu a preocupao por seu filho. Ela no precisava sentir medo. Jamais faria qualquer coisa que pudesse magoar aquela criana inocente que o olhava ansiosamente.
? Charles?  perguntou num tom embargado.
	 a minha lista  o menino explicou num fio de voz.  Lista para meu pai. Mame e eu estamos procurando por um pai, algum que viva conosco para sempre. Ns precisamos muito de um pai que seja nosso. Um pai que goste de ns de verdade.
O corao de Nathan se contraiu. O choque pareceu bloquear sua mente.
	Voc precisa de um pai  ele repetiu, ainda atnito. Aps um breve silncio, acrescentou quase num murmrio:  Bem, filho, espero que voc encontre o
melhor pai do mundo. Qualquer homem, qualquer um, ser um felizardo por ter um filho como voc.
Um sorriso tmido quebrou a tenso refletida no rosto de Charles.
	Ento...  Os lbios do menino tremiam.  Ento, voc...
	Charles  Faith o interrompeu.  J conversamos sobre isso, lembra-se? Eu lhe disse que...
	Eu sei. Eu sei.  Ele esfregou as mos nos olhos.  Sei que voc disse que Nathan no pode ser meu pai. Mas... mas, ainda no perguntei a ele. Voc sempre diz que no sabe o que no pergunta. Quero perguntar, mame.
Charles se voltou para Nathan com expresso sria, ansiosa.
	Voc poderia ser meu pai, Nathan. Prometo deixar voc ganhar no quebra-cabea. Palavra.
As lgrimas escorriam pelas faces dele. Seu corpo inteiro tremia.
Nathan fechou os olhos. Meu Deus, o que eu fiz a esse menino? Por favor, no permita que eu o magoe. No permita que eu magoe outra criana.
Lentamente, Nathan se aproximou dele. Ajoelhando-se, passou o brao pelo corpo trmulo de Charles.
	Charles.  Sua voz estava embargada.  Charles, eu no sabia que voc queria um pai. Se soubesse, juro, que no teria alimentado suas esperanas. Entenda, Charles, no posso ser pai de ningum. Perdi minha filhinha faz pouco tempo. Creio que no conseguirei ser pai de mais ningum. De mais ningum.
Charles aninhou-se mais contra o corpo de Nathan.
	Eu posso esperar at voc poder ser um pai de novo.
? No, Charles. No vai dar certo. No posso ser um pai.  Com as costas da mo, ele enxugava-lhe as lgrimas.  Se eu pudesse, seria seu pai, acredite. Voc  o filho que eu gostaria de ter. Mas, como no  possvel, quero que saiba que sempre serei seu amigo. Seu grande amigo. Mesmo que eu no esteja sempre por perto, voc poder contar comigo. Certo? O menino o olhava, fungando.
	Amigos, Charles?  Nathan perguntou, estendendo-lhe a mo.
Charles mordeu o lbio. Aps alguns segundos de hesitao, ele apertou a mo de Nathan entre as suas.
	Sim. Amigos  disse num tom de quem se sentia derrotado.
Respirando fundo, Nathan fechou os olhos de novo, rogando para que Charles no sasse muito machucado.
	Vamos, meu amor  Faith interveio.  Hora de dormir. J  tarde e voc j deveria estar na cama h muito tempo. Despea-se de Nathan.
O menino desvencilhou-se do abrao de Nathan e pegou na mo de Faith. J estavam quase saindo da sala quando Charles se voltou para Nathan.
	Meu aniversrio ser daqui a duas semanas. Vou fazer sete anos. Vou ser grande. E, garotos grandes no choram. Scotty Miller que disse.
	Scotty Miller est errado  afirmou Nathan, piscando muito.  Garotos grandes choram, sim. Lembrarei do seu aniversrio, Charles. Pode apostar.
Quando Faith retornou  sala, parecia cansada. E cautelosa. Os olhos azuis-esverdeados estavam escuros. Evitava encarar Nathan.
	Lamento muito a cena constrangedora  ela se desculpou.  Charles est passando por uma fase difcil na escola. Ele se sente diferente por no ter pai.
 Um garoto precisa de pai  Nathan disse, esperando pela reao dela.
Cruzando os braos, ela balanou lentamente a cabea.
	Sei disso. Por isso comeamos a escrever a lista. Eu s no imaginava que chegaria nesse ponto. Mas, no se preocupe. Charles alterou a lista muitas vezes, nas ltimas semanas. Quando voc for embora... depois que ele se acostumar com sua ausncia, faremos novas alteraes.
	Voc est procurando algum para casar-se?  A pergunta incomodou-o. No conseguia imagin-la procurando por um marido. Irritava-se s de pensar numa fila de homens, todos os tipos de homens, cortejando-a, tentando ganhar um lugar na vida de Faith e de Charles. No queria que esse pensamento chegasse  concluso lgica, mas, era impossvel no pensar. Um dia, haveria algum, um homem, preenchendo o lugar vazio naquela casa. E, esse homem teria direitos sobre Charles, sobre Faith, sobre o tempo dela, os dias... e todas as noites.
? Voc vai se casar  ele acrescentou. Faith ergueu os ombros.
? Como voc mesmo disse, um garoto precisa de pai.
 E uma mulher precisa de algum para abra-la  noite?  Era verdade. Sim, era verdade que o simples pensamento de algum, qualquer um e no ele, partilhando as noites de Faith, provocavam um aperto na garganta dele.
O rosto de Faith tornou-se rubro. Ela pousou a mo no peito, num gesto de autodefesa.
	Desculpe, Faith. Isso no  da minha conta.  No, no era. Mas, ele precisava fazer um grande esforo para lembrar-se disso.  Faith, no me d ateno. Sinto muito. Principalmente em relao a Charles. Eu no imaginava o quanto meu comportamento iria afet-lo.
	No precisa se desculpar, Nathan. A culpa  s minha. Eu percebi o quanto ele estava se apegando a voc e deixei as coisas acontecerem. No fiz nada para impedir. Eu sabia que Charles no tinha condies para compreender que um dia isto tinha que acabar. Ele nunca tinha conhecido meu pacientes antes. Por tanto, no tem noo de comeo e fim.
Nathan observou-a atentamente. Por um momento, ela pareceu melanclica, frgil. Nathan pensou na lista. Logo, outro homem estaria ali para confort-la, para tom-la nos braos e beij-la profundamente. Outro homem. Algum que a merecesse, que nunca a magoaria como ele poderia mago-la. Um homem que no lhe faltasse. Sim, era o que ela merecia. O que ele desejava que ela encontrasse. Outro homem. Um bom homem.
Ento, por que ele se sentia to indefeso, to incapaz, muito mais do que se sentia antes de Faith entrar em sua vida? Por que suas mos se "sentiam to vazias e inteis?
Ele no sabia. Mas, no queria pensar no assunto. Absolutamente. Irritado, tratou de afastar tais pensamentos.
	Sobre o aniversrio de Charles, Faith. Pretendo manter minha promessa. No virei para no reabrir as feridas, mas mandarei um presente. No quero que pense que o esqueci. Ele  um menino especial. Apesar de to pequeno, ele me ajudou muito. Muito mesmo. Quando vim aqui pela primeira vez, eu tremia s de ouvir a palavra criana. Ele me fez superar esse trauma. Diga isso a ele... algum dia. Ok? Ele precisa saber, mas no agora.
Faith concordou com um gesto de cabea.
? Bem, j vou indo. Acha que Charles est dormindo?
	Acho que sim.  Os olhos dela estavam embaados.  Ele pega no sono logo, principalmente quando est aborrecido.  um consolo para ele.
Nathan hesitou. Entendera o significado das palavras dela.
	Ento... Voc acha... Ser que posso dar uma olhada nele, antes de ir embora?
Faith soltou um longo suspiro, depois concordou. Caminhou at o quarto e, silenciosamente, abriu a porta.
Nathan entrou. O quarto estava iluminado apenas pela lmpada do abajur. Aproximando-se da cama, Nathan percebeu os contornos do corpo frgil sob o lenol. Ao lado, o urso de pelcia. Inclinando-se, roou os lbios na fronte do garoto.
	Nathan?  A voz sonolenta de Charles, sobressaltou-o. Descobrindo os braos, Charles enlaou-o pelo pescoo, escondendo o rosto no pescoo dele.  Nathan, voc est aqui.
? Psiu, Charles. Durma.
Com lgrimas nos olhos, Nathan abraou Charles. Depois, ajeitou-o na cama de novo. Faith seguiu-o para fora do quarto.
Respire fundo, Nathan. Respire fundo. No pense, repetia para si mesmo. No conseguiu. S podia agir.
Assim que Faith fechou a porta do quarto, ele a pegou nos braos, levantou-a do cho e beijou-a.
O beijo foi faminto, profundo, possessivo. Enterrou os dedos nos cabelos dela. Faith enlaou-o pelo pescoo e correspondeu ao beijo. Pela ltima vez, ele sabia. Ultima vez.
	Est na hora, no?  ele sussurrou contra os lbios dela. Lentamente, colocou-a no cho e recuou.
Faith o fitou por longos momentos. Depois, concordou.
 J  tarde.  Erguendo a mo, tocou-lhe na camisa.  No se sinta culpado por Charles. No permita que ele se torne outro arrependimento, outro motivo para no perdoar a si mesmo.
Nathan no respondeu. No poderia dizer a Faith que ele j tinha arrependimentos com relao a Charles. Como poderia no ter? Pelo menos, no magoara Faith. Pelo menos, ela sara inclume.
Ela o conduziu at a porta, estendendo a mo, como se ele no soubesse o que fazer.
 Acho que est  a despedida final  ela disse.  Realmente,  o fim.
Um grito ecoou no ntimo de Nathan, pedindo-lhe para ficar. Ignorou-o, porm. Tinha que ir embora. Seria estupidez ouvir seu corao. Principalmente, por conhecer os fatos. Ele iria embora e tudo ficaria bem.
Pelo menos, era o que esperava. Olhando para ela e lembrando-se dos braos de Charles em seu pescoo, Nathan reconheceu que deixava um pedao de seu corao com Faith e seu filho. Talvez, estivesse se sentindo to angustiado, por estar partindo. Ou, talvez, por estar sentindo a gratido sobre a qual Faith tanto comentava.
Ela poderia estar certa.
Ela no estava certa. No, no era gratido o que ele estava sentindo. A necessidade de abra-la e dizer-lhe que queria ficar e ajud-la a criar o filho, era muito mais do que gratido. Muito mais do que simples desejo. Esperava que a distncia pudesse ajudar a esquec-la.
 Nathan? No esquea... No esquea de cuidar-se. Por favor!
Ele segurou as mos dela entre as suas.
 No esquecerei  ele prometeu. No s disso. No a esquecerei, doce Faith. Mesmo querendo, no a esquecerei  Lembrarei do aniversrio de Charles  garantiu, j na varanda.  Dei-lhe minha palavra.
Ele fora embora. De sua casa e de sua vida.

Nathan partira. Ela o liberara. Por fim, reconheceu que esperava desesperadamente que, no ltimo momento, ele decidisse ficar.Tola.
Pressionou a mo contra os lbios, sufocando o soluo que teimava em escapar de sua garganta. Encostou a cabea na janela da cozinha, sentindo o vidro gelado na pele.
Onde estaria Nathan naquele momento? O que estaria sentindo? Alvio? Segundo ele, era o que sentiria quando terminassem o tratamento.
Certamente, no estava sentindo amor. Ele deixara bem claro que era um homem incapaz de amar de novo.
Quando saram do quarto de Charles, ele a beijara com desespero e sofreguido. Por um momento, ela tivera esperanas. Porm, enganara-se. Fora uma reao natural ao medo de ter magoado Charles. Talvez, fosse at desejo. No fora a primeira vez que Nathan a tocara, provocando reaes inflamadas.
Alvio. Remorso. Desejo. Nada mais. Afinal, mesmo depois de ter lido a lista de Charles, ele fora embora. E, no voltaria mais.
Os ns dos dedos tornaram-se brancos contra a parede da cozinha.
Nathan no voltaria. Teria que aceitar essa realidade e dar continuidade  sua vida. Por ela e por Charles. Tinha que continuar vivendo como se Nathan nunca tivesse se apossado de seu corao. Como se Charles nunca tivesse lhe pedido para ser seu pai.
Ela teria que aceitar o fato de no ter cumprido a promessa de nunca apaixonar-se por um homem que no a queria.
Pelo menos, Nathan no conhecia a verdade. Isso fazia uma grande diferena. Era um consolo para tudo o que acontecera naquela noite.
Na manh seguinte, juntaria os cacos e continuaria vivendo. Convenceria Charles a alterar os itens da lista. Alis, ela j tinha planos com relao  lista. Encontraria um marido para ela e um pai para Charles.
Uma mulher precisa de algum para abra-la a noite.
As palavras de Nathan vieram-lhe  mente, sacudindo-a. S de pensar em outro homem tocando-a, um homem que no fosse Nathan, sentiu um aperto no corao.
A quem estava enganando? Como poderia pensar em encontrar um pai para Charles, quando o simples pensamento de outro homem tocando-a, deixava-a doente?
No, no estava pronta para aceitar outro homem. Ento, teria que pensar em outra soluo.
A resposta veio logo na manh seguinte.
	Mame?  Charles saiu do quarto, descalo e de pijamas.
Faith arrumava a mesa para o caf. Ela no dormira e parecia carregar um peso enorme no peito.
 Sim, querido? Pronto para o caf?
Ignorando a pergunta, Charles parou ao lado dela. 
Faith ajeitou-lhe os cabelos  despenteados.
	Mame, vamos convidar Nathan para a minha festa de aniversrio? Ele disse que no vai esquecer.
Respirando fundo, Faith negou com um gesto de cabea.
 Sinto muito, Charles, mas, no foi bem isso que Nathan quis dizer quando falou que no esqueceria. Ele no poder vir. Alm do mais, convidaremos s crianas.
? Eu sei. Mas, Nathan...
? No, Charles, no. Nathan no poder vir.
A festa de aniversrio de Charles era um bom comeo. Ainda no comeara os preparativos. Na verdade, nem pensara nisso. Talvez, pudesse comear a pensar imediatamente. Havia muito no se envolvia socialmente com ningum. Se comeasse devagar, em situaes no ameaadoras, onde no se visse forada a um contato cara-a-cara com um homem... Sim, talvez fosse um comeo. Um comeo acanhado, sim, mas era tudo o que ela poderia enfrentar no momento.
Olhou para o rosto ansioso do filho.
	O que acha de convidar as famlias dos seus amigos e fazermos uma festa especial? Ser divertido, no?
Charles deu de ombros.
Bem, o que ela esperava? Ele estava magoado. Profundamente magoado. Nada o faria mudar do dia para a noite.
? Charles?  ela o abraou.
	Por mim, tudo bem, me. Se falssemos para Nathan que no viriam crianas...
Segurando o rosto do filho entre as mos, Faith falou com firmeza:
	Temos que esquecer Nathan. Realmente, temos que esquec-lo.
O olhar furioso de Charles atingiu-a em cheio.
	No quero esquecer Nathan  ele gritou, voltando correndo para a segurana de seu quarto.  No quero esquecer Nathan. Nunca.
Faith queria confort-lo. Mas, no se moveu. Charles precisava ficar sozinho. Alm disso, o que ela poderia dizer? Sabia como ele estava se sentindo, porque ela
tambm no queria esquecer Nathan. Mas, tinha que esquec-lo, embora soubesse o quanto seria difcil.
Sua esperana era que, at a festa de aniversrio, a dor de Charles tivesse amenizado um pouco. Rogava para que seu filho tivesse momentos de felicidade num dia que deveria ser s de alegrias.
Enquanto isso, ela deveria sobreviver, de alguma forma. Tinha uma festa para planejar, uma vida para planejar. Uma vida que no inclua Nathan Murphy.



CAPITULO IX

Passaram-se os dias e, contrariando as expectativas, Nathan no conseguia esquecer Faith.
Ele voltara a trabalhar no hospital. Via Faith, com freqncia, sempre  distncia. E, em todas as vezes que a via, entrava em pnico.
L estava ela de novo, no final do corredor que ele e Dan Anderson entraram. Faith conversava com Bill Neely, um ortopedista alto e loiro. Provavelmente, conversavam sobre algum paciente.
Porm, a famigerada lista insistia em danar diante dos olhos de Nathan. Alto. Cabelos amarelos. Mdico.
Talvez, ela estivesse conversando sobre um paciente. Talvez, no. Faith procurava um homem disposto a construir uma vida com ela e Charles. Ele no poderia culp-la por estar  procura do Sr. Ideal.
 Nathan? Voc est aqui, Nathan?
A voz de Dan Anderson penetrou em seus ouvidos. Franzindo as sobrancelhas, voltou-se para o amigo.
? Desculpe. Perdi alguma coisa?
Sim, voc no ouviu nada do que eu disse... pela dcima vez em dois dias. Olhe, Nathan, por que no vai falar com a moa? Est na cara que voc est preocupado com ela.
	Com Faith? Que absurdo, Anderson. Faith  uma tima pessoa, uma mulher forte, uma profissional excelente. Alis, voc mesmo me disse isso quando a mandou para mim.
	Realmente, ela  uma mulher forte, competente, e milhares de outros adjetivos maravilhosos. Mas, se no est preocupado, por que cerra os punhos sempre que algum homem se aproxima dela?
Nathan contraiu os maxilares. No sabia que era to transparente.
? Bobagem.
	Bobagem, ? Voc fica parecendo um lutador de boxe. E, no me venha com a desculpa do problema nas mos. Acho que teremos problemas se voc no tirar essa bela terapeuta de sua mente e concentrar-se na cirurgia da Sra. Wyndham.
	Ex-terapeuta  Nathan corrigiu-o.  No estou preocupado. Estou apenas pensando no quanto sou-lhe grato.
Dan olhou-o como se Nathan tivesse enlouquecido. O que no era totalmente mentira. Apesar de ter voltado s atividades profissionais, Nathan sentia como se tivesse perdido um pouco do juzo... todas as vezes que via algum homem perto de Faith. Ou sempre que pensava nela, o que ocorria com muita freqncia.
Isso no podia continuar. Afinal, Faith tinha direito a uma nova vida que no o inclua. Ele no tinha nada para oferecer-lhe. Era um homem preso ao passado, cujas emoes ainda estavam em pedaos.
Respirando fundo, voltou-se para Dan.
	Ok, Dan. Fale-me de novo sobre a paciente. Estou ouvindo.
Dan balanou a cabea em total descrena.
	Mesmo se eu disser que o Dr. Lowden est parando para conversar com ela e Neely?
Nathan engoliu a seco, mas esforou-se para no cerrar os punhos. Joe Lowden era o mdico mais novo da equipe. Talentoso, competente, simptico, bonito... e adorava crianas. O homem perfeito para algum como Faith.
	Deixe-me ver a pasta da Sra. Wyndham, Anderson.  Nathan ignorou o olhar incrdulo do amigo.  E, pare de me olhar desse jeito. Neste momento, estou interessado apenas em trs coisas. Trabalho, trabalho e trabalho.
Mas no era em trabalho que ele vinha pensando nas ltimas semanas. Nem dois dias depois, quando cruzou com Faith, de novo escoltada por Joe Lowden.
Ele deveria dedicar-se inteiramente ao trabalho, dedicar-se vinte e quatro horas por dia  profisso, como antigamente. Porm, tudo o que conseguia era pensar em Faith. Faith e Charles.
E, vendo-a com Lowden, observando o modo como o homem se inclinava na direo dela, Nathan comeou a tremer. Tentando controlar os pensamentos, obrigou-se a admitir que Lowden seria timo para Faith e que ela merecia encontrar um homem gentil e carinhoso.
Apesar de toda boa vontade, quando se cruzaram no corredor, ele parou abruptamente. Ela tambm.
Pela primeira vez em duas semanas, Faith olhou direto no rosto de Nathan. Apenas alguns passos os separavam. Quando os olhares se encontraram, Nathan sentiu que algo muito especial estava acontecendo entre ambos.
Os lbios de Faith tremeram. Os olhos, aquelas duas gotas azuis que escureciam quando ele a provocava, estavam lmpidos, meigos, doces, ansiosos...
Nathan recuou alguns passos. Fechando os olhos, sentiu um tremor sacudir-lhe o corpo. A alma e o corao de Faith estavam refletidos naquele olhar. Diante da enormidade que Faith revelava, ele respirou fundo, aliviado.
Mas, quando abriu os olhos, o rosto de Faith estava fechado, sombrio. Os ombros estavam rgidos. Ela parecia mais alta. A suavidade desvanecera-se e o olhar... parecia ver atravs e alm dele.
Lentamente, ela se voltou para o Dr. Lowden, enquanto continuavam a caminhar pelo corredor.
J estavam muito prximos, quanto Lowden cumprimentou Nathan, que respondeu com um aceno de mo.
 Faith  Nathan chamou-a gentilmente.
Ela o olhou e, inclinando a cabea, cumprimentou-o.
	Dr. Murphy, estou contente por v-lo de volta ao hospital  ela disse sem parar de andar.
Uma resposta polida, profissional em todos os sentidos. Nathan sentiu-se frustrado. Voltando-se, Nathan viu-os afastando-se pelo corredor. Viu como Lowden pousou a mo nas costas dela quando abriu-lhe a porta dando-lhe passagem. Era o gesto de um marido. Ou de um amante em potencial. Nathan percebeu que Faith se contraiu levemente, apesar de no ter recuado.
Nathan cerrou os punhos sem importar-se com o fato de algum notar.
Faith no estava apaixonada por Joe Lowden. Ainda no. Era ele, Nathan, quem a deixava perturbada. Lera a verdade nos olhos dela, nos lbios. Mas, isso no mudaria nada.
Parado no meio do corredor, Nathan, de repente, encarou a realidade. Admitiu o que estava escondendo desde o primeiro dia em que ela entrara na casa dele.
Amava Faith Reynolds e no poderia t-la. Ele a perdera, intimidara-a, dissera-lhe que no desejava uma famlia. E, independente dos sentimentos, ela jamais o aceitaria. No, enquanto ele no vencesse os prprios fantasmas. Ela no aceitaria um homem como ele para o futuro, sabendo que ainda estava preso ao passado.
Em vez disso, ela pegaria a famosa lista e sairia  procura do pai e marido perfeitos. Um homem disposto a amar e ser amado. Joe Lowden, ou outro qualquer, poderia ser o homem ideal para amar e proteger Faith e Charles para sempre.
Aquele era o homem com quem Faith deveria casar-se. Um homem que lutasse contra todos os obstculos para ficar com ela e faz-la feliz. Um homem que enfrentaria tudo por ela. Um homem que a amasse tanto, a ponto de enfrentar os prprios demnios.
Naquele momento, Nathan reconhecia que desejava ser aquele homem. S no tinha certeza se seria possvel. O passado ainda pesava muito. Se pretendia oferecer alguma coisa  Faith, precisaria lutar arduamente para livrar-se desse peso.

Sentada na sala de estar, Faith separava os artigos de decorao que escolhera para a festa de Charles. O aniversrio seria no dia seguinte. Estava tudo sob controle. Ento, por que no conseguia sorrir?
Charles entrou na sala e ela o chamou:
 Ei, campeo! No quer ajudar-me a separar as coisas para decorar a sala?
Ele se aproximou silenciosamente. Esse era o comportamento de Charles nas ltimas semanas. Obediente, mas sem entusiasmo, ele se arrastava pela casa, fingindo brincar. Nunca mais mencionara a "Lista do Papai". Nem uma nica vez.
	O que acha?  ela perguntou, mostrando-lhe uma faixa onde se lia "Feliz Aniversrio".
Forando um sorriso, Charles correu os dedos sobre as letras brilhantes.
 Est bom, mame.
Faith disfarou o aborrecimento. No precisava perguntar o que havia de errado. Charles enfrentava o mesmo problema que ela. Sentia falta de Nathan. Mas ela no podia fazer nada. A situao era difcil e ela a piorara ainda mais, naquela manh.
Como pudera ter uma atitude to estpida, baixando a guarda e permitindo que Nathan lesse em seu corao? Aquilo s tornara as coisas bem piores, muito mais difceis de suportar. Depois que descobrira os sentimentos dela, Nathan recuara, fechara os olhos, rejeitando seu amor. Faith mordera o lbio para no deixar escapar um gemido de dor. Ela arriscara de novo. O resultado era triste. O passado se repetia. S que dessa vez, a dor era muito mais profunda. Dessa vez, o homem era Nathan.
	Ei, campeo!  Afagou o nariz de Charles.  No fique assim. Ns nos divertiremos muito, amanh. Espere para ver. Todo mundo chegando para comemorar o seu grande dia. At mesmo o pai de Scotty Miller telefonou confirmando sua presena. Nossa casa ficar repleta e voc ganhar muitos presentes.
Charles limitou-se a sorrir. Com o corao apertado, Faith continuou animando o filho. Esperava que a festa fosse um acontecimento feliz, o primeiro passo para ela e Charles esquecerem Nathan e comearem a procurar o pai e marido que tanto precisavam. Dessa vez, fariam as coisas certas. Dessa vez, procurariam algum de quem gostassem e no que amassem.

Na escurido do quarto, Nathan ouvia as batidas descontroladas de seu corao.
A imagem de Faith brilhava em sua mente. Nathan gemia, lutando contra o desejo de pegar o telefone e ouvi-la murmurar seu nome. Uma vez, apenas.
No. No a procuraria. Nem se aproximaria dela de novo. No, enquanto no se libertasse totalmente. No, enquanto o passado no fosse enterrado.
Lembrar o passado, era um grande risco. Significava abrir-se para revelaes que poderiam destru-lo por inteiro. Quanto ele estava disposto a arriscar pela mulher amada?
Silncio. Escurido. Alguns segundos se passaram. Ento, Nathan pegou a foto de Joanna e Amy que deixara sobre o criado-mudo. Estreitou os olhos para ver a foto no quarto iluminado apenas pela luz da lua. Lentamente, abriu o corao, a mente, para que os fantasmas do passado surgissem diante dele.
Estava acordado. Em vez de fugir, enfrentaria os pesadelos.
Viu Amy, sorridente e alegre, dizendo-lhe que o amava. Viu Joanna, triste, com os olhos castanhos acusadores. Joanna acusando-o de amar mais o trabalho do que a ela, de estar mais preocupado em ajudar outras pessoas quando deveria ajud-la. Seu prprio argumento de que no poderia virar as costas para os necessitados. As lgrimas dela. O arrependimento por no poder mais ser como ela queria.
Apertou a barra do lenol. Seu corao se contraiu de dor. Uma dor que intensificava-se, espalhava-se, correndo de volta para a noite do acidente.
As lembranas tomaram conta dele. Uma noite escura. Um carro ziguezaguendo na direo deles. Freada. Rudo de pneus no asfalto. O p no acelerador
numa tentativa de escapar do carro sem controle. Impossvel. Gritos. Gritos de Joanna. Gritos na escurido. Gritos dele. Lgrimas e pnico. Depois, a dor fsica ao tentar ajudar a esposa. Metal quente, agudo, contorcido sobre suas mos.
Ele tentara. Oh, como ele tentara salv-la! Salv-las. Tentara desvencilhar-se das ferragens e alcanar a filha que estava no banco traseiro. Tentara reanim-la quando a vida estava quase se esvaindo. Tentara.
E falhara.
A dor era grande demais. A dor jamais se aplacaria... mas, mesmo em meio  dor, ele a via. Faith. Doce, generosa, Faith. Superara a dor por ela. Finalmente, tinha coragem de encarar a realidade.
Tentara salvar sua famlia, agora compreendia. Era verdade que no conseguira. Mas, tambm era verdade que no fora responsvel pelo acidente. Ele no poderia ter mudado o rumo dos acontecimentos. No poderia fazer mais do que fizera. O outro carro estava descontrolado e em alta velocidade.
Nathan sentou-se na cama. Seu corao estava acelerado, descontrolado. Os sonhos estavam muito prximos. Os fantasmas do passado tambm. Mas ele no era um fantasma. Era um homem.
Os primeiros raios da madrugada encontraram-no diante da verdade, tocado pelas lembranas vividas e reais. Ele fez as pazes com os demnios.
Finalmente, com dedos trmulos, pegou a fotografia de novo. Fitou a esposa e a filha adorada, acariciou os rostos que jamais tornaria a ver.
Quando o sol iniciou sua jornada pelo cu, Nathan disse adeus  mulher a quem tentara amar. Despediu-se da filha com um beijo.
Desejou que Amy tivesse conhecido Faith. Ela teria gostado de Faith. Sua Faith.
Sua Faith... se j no fosse tarde demais.
No, no seria tarde demais. No poderia ser.
Levantando-se, pegou o convite de aniversrio que Hannah lhe trouxera. Sabia que o convite fora mandado sem o conhecimento de Faith. No pretendia ir  festa. Pensara em enviar um presente acompanhado de um carto.
Agora, nada no mundo o impediria de estar junto da mulher e da criana s quais amava. De alguma maneira, teria que convencer Faith de que ele era o homem da lista. Que era o homem com quem ela e Charles poderiam contar para alm da eternidade.
A frente da casa estava enfeitada com bales e a faixa de feliz aniversrio. Estacionou a Blazer ao lado dos demais carros. Respirando fundo, pegou a caixa enorme que estava no banco traseiro. Desceu do carro e, com passos lentos, caminhou at o porto. A festa parecia animada. Ouvia risadas, gritos, conversas. Tentou reconhecer a voz de Charles entre tantas, mas no conseguiu.
Ele magoara o menino naquele ltimo encontro. Lembrava-se dos bracinhos dele em seu pescoo, praticamente pedindo-lhe para ficar: O pensamento provocou-lhe um frio no estmago. Prometeu nunca mais magoar Charles. Nunca mais o deixaria. Isso se Faith lhe abrisse a porta.
Apressou o passo. Parou ao ouvir o som da voz dela.
Levantando a cabea, viu-a na lateral da casa, conversando com um homem de cabelos escuros. Ela lhe entregava um fio com lmpadas coloridas. O homem sorriu e pendurou as lmpadas. Depois, disse algo em voz baixa, algo que Nathan no conseguiu ouvir.
No importava. Ele viu o sorriso nos lbios dela. Viu como ela se inclinou para responder. Os cabelos cor de mel roaram no ombro do homem. Os cabelos bonitos e sedosos que Nathan se lembrava to bem. Os cabelos que todo homem gostaria de enterrar os dedos na hora de beij-la, de toc-la, de am-la.
Nathan sentiu a fora do cime apertando-o, queimando-o. Respirou fundo, obrigando-se a no se mover, a no cometer nenhuma tolice.
Ele estava ali por uma razo e no teria como explicar uma eventual cena de cime. Passou a mo no queixo e avanou mais alguns passos. Logo, chegaria ao porto e, ento, poderia v-la, falar com ela.
	Charles, Scotty  chamou o homem de cabelos escuros.  Venham c.
Nathan viu Charles e outro garoto com os cabelos escuros e encaracolados iguais ao do homem, correrem para o quintal. Ele afagou os cabelos do menino e fez o mesmo com Charles. Faith, ento, pediu para algum acender as luzes coloridas que brilharam na escurido. Faith acariciou o brao do filho e sorriu para o homem, que se inclinava possessivamente na direo dela.
Uma famlia. Nathan reparou que eles pareciam uma famlia.
Deveria deix-los em paz.
Porm, parado ali, com uma caixa de presente em uma das mos, os dedos da outra apertados de raiva, de repente, Nathan quase pde ouvir Faith, logo no primeiro dia, ralhando por ele no tentar. Avanou mais um passo. Ao diabo com o homem do quintal. Havia uma mulher e uma criana naquele jardim a quem ele amava. No poderia simplesmente virar as costas e ir embora.
 Faith, tenho que tentar  resmungou. No desistiria sem lutar. Amava Faith profundamente e no entregaria os pontos com facilidade.
Endireitando os ombros, abriu o porto. A ltima vez em que l estivera, ainda era um paciente lutando para recuperar sua carreira. Agora, era um homem disposto a lutar pela mulher amada. E ningum, nem homem nem monstro, atravessaria seu caminho.
Faith viu quando Nathan abriu o porto. Alto, ombros largos, olhar fulminante. Ela ameaou ir ao encontro dele, mas, parou. Seu corao parecia querer saltar do peito. Os olhos estavam embaados pelas lgrimas.
Incapaz de falar, ela simplesmente esperou.
Nathan se aproximava mais e mais.
Faith tentava respirar.
Ele trazia uma caixa. Um presente para Charles. Com certeza, ele entregaria o presente e depois iria embora. Dessa vez, para sempre. Era muito importante lembrar-se disso. Teria que conter o impulso de atirar-se nos braos dele. No, no poderia fazer o que desejava, nem pedir-lhe para voltar para ela e Charles.
Charles. Ouvia a voz dele vinda do outro lado do quintal, onde ele e Scotty brincavam com sr. Miller. Charles ainda no vira Nathan. No, no estava certo. No queria que seu filho terminasse o dia de seu aniversrio em lgrimas.
Suas pernas tremiam. Rapidamente, foi ao encontro de Nathan para impedi-lo de ver Charles.
 Ol, Faith.
O nome fluiu dos lbios dele como uma carcia. Ou melhor, era o que ela queria acreditar.
	Entre, Nathan  ela murmurou, pegando-o pela mo.
Assim que atravessaram a soleira da porta, longe da linha de viso de Charles, ela soltou-lhe a mo. Tentando ignorar o fascnio daqueles olhos verdes, ela perguntou:
	O que est fazendo aqui? Voc no deveria ter-vindo.
Ele sorriu. Colocou o pacote sobre um mvel. Inclinou-se e Faith notou que os cabelos dele estavam revoltos como sempre, atraentes, convidativos. Chegando mais perto, ele sussurrou-lhe ao ouvido:
	Adoro quando voc fica brava, Faith. No diga que eu no deveria vir. Estou aqui, como pode ver.
Ele recuou, para dar-lhe espao para respirar. Apoiando-se na soleira da porta, ele cruzou os braos, como se pretendesse ficar ali para sempre.
	Voc no me respondeu, Nathan.  Ela tentava manter a voz fria. Tentava bloquear sua mente para tudo o que a presena dele provocava.  No o quero aqui. No quero que Charles o veja. Ele no pode v-lo aqui, Nathan!  ela pediu, fechando os olhos.
	Faith...  A voz continuava como uma carcia.  Eu no deveria estar aqui. Deus sabe o quanto tentei no vir. Mas, prometi a Charles que no esqueceria do aniversrio dele. Acha que faltaria com minha palavra?
Ele se aproximou de novo, parando ao lado dela. A voz dele magoava, machucava, porque ela sabia que logo ele partiria. Odiava saber que era to fcil para ele deix-la, enquanto tudo o que ela desejava era pedir-lhe para ficar.
Faith recuou alguns passos. Obrigou-se a encar-lo para que ele visse o quanto queria que ele sasse daquela casa. Imediatamente.
	Nathan, por favor, v embora. Ser que esqueceu da noite em que nos despedimos? Voc no entende o quanto foi difcil para Charles? J esqueceu aquela lista? Voc no se preocupa com ele?
Segurando-a pelo queixo, Nathan sorriu.
	Claro que me preocupo, Faith. Mais do que imagina. Eu no queria vir justamente para no magoar Charles. Eu no esqueci a lista. Alis, penso nela com freqncia. Por isso estou aqui. Por isso voltei. Para candidatar-me ao papel de pai e... marido. Pelo que me lembro, preencho todos os requisitos.  Ele tocou-lhe os lbios com o dedo.
Faith no conseguia controlar o tremor. Nathan a estava tocando, acariciando. Lentamente, balanou a cabea. J havia perdido todas as esperanas. E, inesperadamente, ele estava na frente dela dizendo que queria tornar-se seu marido. Por qu? Para redimir-se por ter magoado Charles?
No era suficiente. Com outro homem at daria certo. Mas, com Nathan... Ele no a amava. Por isso, no poderia casar-se com ele. Apesar, dos planos dele. Apesar da famigerada lista.
Nathan segurou-lhe a cabea entre as mos. De novo, ela balanou a cabea.
	No quero voc aqui  repetiu.  V embora. Agora.
Ignorando os protestos dela, Nathan inclinou-se, diminuindo o espao entre ambos.
	De jeito nenhum, Faith. J fizemos este jogo antes. No primeiro dia, lembra-se?  Ele acariciava-lhe o rosto, aquecendo-a com o prprio calor.  S que agora, os papis se inverteram.  Repetindo as palavras que voc disse naquela ocasio, vim aqui com um propsito. Tudo o que preciso, tudo o que quero,  que voc diga sim.
Faith queria acreditar em Nathan. Mas, ainda lembrava-se da reao dele quando, num momento de fraqueza, ela expusera seus sentimentos.
	Nathan, se voc est se sentindo responsvel por mim e por Charles, esquea. No h necessidade nenhuma de preocupar-se conosco. Esquea a lista, por favor. No quero que pense mais nesse assunto. Voc no  responsvel por ns.
Afastando-se, ele a fitou direto nos olhos. Depois, segurou-lhe as mos.
	E se eu quiser ser responsvel por vocs? De repente, posso ter descoberto que o cirurgio de dedos mgicos no tem magia nenhuma sem vocs.
Ela virou o rosto para esconder a esperana que surgia em seus olhos. No queria acreditar nas palavras dele. De novo, a gratido.
	No  verdade, Nathan.  ela murmurou, detestando o fato de sua voz soar fraca e assustada.  Voc ainda est confuso, tentando reencontrar seu lugar no hospital. E isso.
	No, Faith.  Correu as mos pelos braos dela, detendo-se nos cabelos cor de mel.  No  gratido. Tambm no estou confuso.  amor, Faith.  o amor que est falando por mim.
? Nathan, eu...
Um beijo rpido interrompeu-a.
	Faith, por favor. Oua-me. Eu a amo. Compreendi a intensidade desse amor quando a vi no hospital, ontem. Quase enlouqueci s em pensar que a perdera.
Sabe o que mais, querida? Tenho cime de todos os homens que se aproximam de voc. Senti cime de Joe Lowden e desse homem com quem voc estava l no jardim. Ser que  tarde demais, Faith? Voc ainda pensa em mim?
Erguendo a cabea, ela abriu a boca para negar, para jurar, se preciso, que no pensava nele, que no se importava com ele. No queria decepcionar-se no momento em que Nathan recuperasse a razo.
	No diga nada. No negue o que existe entre ns, Faith. Sei que existe um sentimento muito forte, verdadeiro. Durante muito tempo, tentei fugir, mas, ontem...  Nathan fitou-a com tanta intensidade que Faith, instintivamente, aninhou-se nos braos dele.
? Ontem?  ele repetiu.
Abraando-a com fora, Nathan enterrou os dedos nos cabelos dela.
	Sim, no hospital. Quando voc me olhou daquele jeito, com amor... Naqueles poucos segundos, com preendi o que voc sentia por mim. Voc no queria demonstrar, eu sei, por temer que eu sentiria pena de voc. Fiquei apavorado, confesso. Achava que eu no a merecia, que destrura seus sentimentos por mim.
Nunca pensei que poderia perd-la justamente porque voc gostava de mim.
Suspirando, Faith fitou-o. Ele descobrira seus segredos. No podia mais escond-los.
	Nunca pretendi envolver-me com voc  sussurrou ela.  Eu fugia de todo e qualquer envolvimento sentimental, mas...  Ergueu os ombros e sorriu.  O que posso dizer, Nathan? Que tentei no envolver-me, mas, que no consegui controlar meu corao? O resultado est a. Eu o amo, Nathan. Muito. Muito mesmo. S esperava no ter demonstrado to claramente.
	No fosse isso, eu nunca teria tido a coragem de lutar por voc. Passei estes dois ltimos dias exorcizando-me dos fantasmas do passado. Finalmente, admiti que no tinha o poder de salvar minha mulher e minha filha. Que no fui to omisso quanto me considerava.
Faith compreendeu que Nathan havia dado um passo decisivo para livrar-se do passado qe tanto o atormentava. Descansou a cabea no peito dele.
	O fato de quase t-la perdido, fez com que eu me conscientizasse de que ningum pode esconder-se do passado. No h como. Agora sou um homem livre, Faith. Livre para amar e recomear uma nova vida. Eu a amo, Faith. E sempre a amarei.
Olhando-o atravs das lgrimas, Faith sorriu. Enlaando-o pela cintura, pressionou o corpo contra o dele.
	Eu tambm o amo, Nathan. Para sempre. E...  Calou-se subitamente.
Erguendo-a do cho, Nathan a beijou sofregamente.
? E?  ele murmurou contra os lbios dela.
	E... voc no precisa sentir cime de homem nenhum. Nem mesmo do homem do jardim.  o pai de Scotty Miller, amigo de Charles.
	timo.  Beijou-a de novo.  Realmente, no quero estragar a festa distribuindo socos por a.
	Nathan?  Ela o fulminou com o olhar de terapeuta.  No quero que brigue com ningum por minha causa. Abomino a violncia e no quero que meu filho assista a cenas desse tipo. Alm do mais, depois de todo trabalho que eu tive para recuperar suas mos, no seria justo us-las para agredir um homem s porque ele ia...
	Casar com voc?  ele perguntou, cobrindo-lhe o pescoo de beijos.  Foi o que pensei. Quase enlouqueci. S em pensar que outro homem teria o direito de abra-la, toc-la, acarici-la. Case comigo, Faith. Seja minha para sempre.
	Quero dizer sim. Mas no sou sozinha, Nathan. Tenho que saber como se sente em relao a Charles. Eu me lembro muito bem do seu medo de crianas.
O sorriso de Nathan no poderia ser mais radiante.
	Charles? Charles  meu filho. Decididamente, meu filho. No de sangue, mas por direito, por amor. Isto , ser meu filho, se voc concordar em casar-se comigo.
	Eu...  Faith foi interrompida pela sbita chegada de Charles.
? Nathan! Nathan!
Precipitando-se na direo de Nathan, o menino agarrou-se nas pernas dele.
	O pai de Billy Wilkin me disse que um homem parecido com voc estava conversando com a mame. O que voc est fazendo aqui? A mame disse que
voc no poderia vir.
Nathan acariciou os cabelos de Charles. Depois, pegou-o no colo.
	Vim porque amo voc e sua me. Se ela aceitar, ns nos casaremos. Isso significa que ficaremos juntos para sempre, filho.
Charles enlaou-o pelo pescoo.
	Isso significa alguma coisa mais  o menino afirmou solenemente.
	O qu, Charles?  Faith perguntou, vendo seu filho e o homem a quem amava, juntos, abraados, sorrindo, felizes. Emocionada, continha as lgrimas.
	Vou mostrar.  Desvencilhando-se de Nathan, o menino saiu correndo.
Nathan e Faith trocaram um olhar interrogativo, mas Charles voltou antes que fizessem algum comentrio. Ele trazia um pedao de papel na mo.
	J que vo se casar, vou jogar fora a "Lista do Papai". No precisamos mais dela. Voc vai ser meu papai.
Em silncio, Nathan pegou na mo de Faith.
	Voc no vai dizer sim, mame?  Charles indagou, pulando de alegria.  Voc no vai beijar Nathan?
Rindo, Nathan puxou Faith para junto dele.
 Voc no vai dizer sim, Faith? No vai me beijar?
Erguendo-se na ponta dos ps, Faith enlaou Nathan pelo pescoo, enquanto Charles rasgava a bendita lista.
	Sim, Nathan.  Pedaos de papel voaram pelo ar.  Sim, Nathan casarei com voc. E sempre o amarei.
? Eu tambm  Charles completou.
Nathan pegou Charles no colo e os trs uniram-se num abrao. Faith sabia que aquela unio duraria at o final dos tempos.





MYRNA MACKENZIE adora escrever, passear pela praia em dias frios e andar de bicicleta. Ela acha que o mundo s evolui por causa do amor. E  o amor que a faz dedicar-se horas e horas a escrever romances.



